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09/03/2020

Entrevista com a psicóloga

Selene Barreto 


1. Como é visto o dependente de álcool nas organizações corporativas?

O dependente costuma ser visto de forma depreciativa e as empresas ainda não dão a devida importância à questão. Falar sobre os Programas de Atenção e Prevenção dos Problemas Relacionados ao Álcool e outras Drogas (PAP-PRAD) ainda é difícil, mesmo sendo um assunto atual e relevante para garantir segurança, produtividade, economia e a saúde do trabalhador. O tema é polêmico e complexo, porque requer mudanças de comportamento e de crenças por parte de todos, desde os diretores aos supervisores e funcionários dos mais variados níveis. Há gestores que não se intimidam em dizer: “Eu não tenho nenhum caso aqui, mas se souber de funcionário com problemas por conta do álcool, ele será demitido.” E outros que mantêm bebidas alcoólicas expostas em suas salas de trabalho. Quando uma organização busca o PAP-PRAD, geralmente é por conta de alguma exigência do contrato com uma empresa estrangeira. Ou porque a lei impõe como condição (é o caso da RBAC-120, resolução 326, de 2014, instituída pela ANAC, que tem o objetivo de evitar o uso inadequado de álcool e outras drogas por profissionais da aviação civil brasileira).

2. Como é visto o dependente de tabaco nas organizações corporativas?

Os administradores vêm percebendo que o problema da dependência precisa de um envolvimento maior das próprias organizações. Os gastos e o prejuízo com licenças médicas decorrentes das consequências clínicas do tabagismo – aposentadoria precoce, queda na produtividade, faltas ao trabalho, ausências para realização de tratamento médico – têm sido cada vez mais considerados sob os aspectos da gestão econômica das empresas. Os programas de combate ao tabagismo nas organizações estão avançando, geralmente seguem as diretrizes do INCA e precisam ser organizados de acordo com a demanda da empresa, para que a ajuda seja mais efetiva.

A implantação começa com a sensibilização do empregado, por meio de informações que o instiguem a iniciar o Programa/tratamento. Depois, a empresa dá continuidade às ações de prevenção. Através da Lei 9.294/96, regulamentada pelo Decreto 2.018/96, proibiu-se a utilização de cigarros, cigarrilhas, charutos e cachimbos em ambientes de trabalho, favorecendo muito as ações para redução dos tabagistas.

3. Como Implantar um Programa de Álcool, Tabaco e outras Drogas nas Empresas?

A motivação deve vir dos governantes e dos empregadores, a partir do conhecimento dos benefícios da implantação de uma Política de Álcool, Tabaco e outras Drogas nas Empresas; ou seja, uma ordem de cima para baixo, pela importância e seriedade do tema. Os ganhos são muitos, tanto diretos quantos indiretos: menos absenteísmo e presenteísmo, mais produtividade, menos acidentes e incidentes, menos sabotagem e furtos na companhia, fortalecimento da imagem da empresa e da responsabilidade social, tendo como consequência maior economia.

Os passos para implantação são: montar uma equipe gestora do programa; desenvolver um Diagnóstico Situacional (DS) para favorecer as melhores ações de prevenção e avaliar os benefícios; desenvolver a política da empresa (de assistência e prevenção); divulgar/ sensibilizar todos os colaboradores/ empregados da empresa e, por fim, prosseguir com as ações de Prevenção Continuadas. A implantação o PAP-PRAD deve estar baseada na política da empresa de forma transparente, clara, ética e consistente, atendendo às recomendações da Legislação Trabalhista.

4. Como é visto o dependente de outras drogas nas organizações corporativas e como funciona o grupo de apoio?

Ainda são vistos por uns de forma pejorativa e por outros com sentimento de pena. Com isso, acabam não buscando ajuda adequada, o que agrava seu quadro biopsicosocial. A empresa que tem PAP- PRAD geralmente incentiva uma busca espontânea e, assim, diminui os riscos para a saúde do empregado e as consequências para a empresa. É muito favorável quando a equipe de saúde da empresa está habilitada a encaminhar o funcionário para a rede de assistência especializada para tratamento da dependência química (álcool, tabaco e outras drogas), porque ela acompanha e reintegra o funcionário no ambiente de trabalho. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) (2003) revela que funcionários dependentes de drogas têm três vezes mais chances de sofrer acidentes do que os não dependentes. E a sua necessidade de tirar licenças médicas é cinco vezes maior do que a de outra pessoa sem dependência.

Na maioria dos casos, os empregados encaminhados não são dependentes químicos, e sim usuários. Pessoas que fazem uso nocivo de álcool e outras drogas no ambiente de trabalho precisam ser encaminhadas para reabilitação e receber informação, reforçando a prevenção tanto no ambiente de trabalho como na vida de uma forma geral.

5. Que números comprovam os problemas de álcool e outras drogas no trabalho?

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) indica que de 20% a 25% dos acidentes de trabalho no mundo envolvem pessoas sob efeito de drogas, que machucam a si mesmas e a outros. Hoje, o Brasil apresenta alguns dados que podem servir de base técnica e reforçar a importância de PAP-PRAD nas empresas. O Ministério da Previdência Social relata, por exemplo, que entre janeiro de 2008 e junho de 2013 mais de 100 mil pessoas receberam benefícios por conta de problemas relacionados ao consumo de álcool. Cerca de 81,9% de auxílio-doença referem-se às pessoas que foram afastadas do trabalho em decorrência de doenças relacionadas ao consumo de droga. Em 2015, em média 125 pessoas por dia foram afastadas do trabalho por conta desse problema, também segundo os dados da Previdência.

Em outros países, como Estados Unidos e Canadá, e na Europa, as empresas têm entre as suas preocupações os programas de prevenção ao consumo de álcool, tabaco e outras drogas. É de conhecimento geral que para cada 1 dólar investido nos programas de prevenção há uma economia/retorno de 8 dólares.

6. Quais os benefícios de ter programa de apoio ao dependente químico para o trabalhador dependente e para a empresa?

Como já falei anteriormente, os benefícios diretos e indiretos são grandes, principalmente quando a empresa tem uma política que vai estabelecer as normas e um programa que irá traçar e desenvolver as ações de Prevenção do PRAD. 

Os ganhos da companhia são: maior produtividade, força de trabalho mais saudável, redução de custo (seguros e planos de saúde), melhoria da imagem da empresa etc.

Os ganhos do colaborador: qualidade de vida, ambiente de trabalho seguro, redução de fatores de estresse, motivação e estabilidade emocional, melhora nas relações interpessoais etc.

O objetivo final é o melhor nível de saúde e segurança para os empregados e para as empresas.

7. Quais as Ações de Prevenção sugeridas nas Empresas?

As Ações de Prevenção Continuadas são intervenções baseadas na educação, informação e orientação, refletindo nas mudanças comportamentais do empregado. A prevenção evita ou minimiza, retarda ou ajuda e ocorre em três níveis: Universal, Seletiva e Indicada.

1ª) Prevenção Universal é direcionada a todos os trabalhadores da Corporação. Exemplo: Implementação da Política de PAP-PRAD, desenvolvimento de Programas de assistência e de exames Toxicológicos etc.
2ª) Prevenção Seletiva é indicada para um grupo de trabalhadores diretamente envolvido na operação e para os quais os fatores de risco no trabalho são grandes; portanto, precisam ter uma estratégia de segurança maior. Exemplo: Exames Toxicológicos, palestras interativas principalmente em datas específicas etc.
3ª) Prevenção Indicada é planejada e desenvolvida para indivíduos que já apresentam os primeiros sinais e sintomas do uso nocivo ou de dependência química. Exemplo: Encaminhar para fortalecer a informação (reabilitação), em caso de uso nocivo e/ou para uma clínica especializada quando for dependente químico.

8. O que a motiva a trabalhar com este tema?

Como uma profissional que trabalha há mais de 30 anos com PRAD, atendendo diretamente os empregados com dependência química e seus familiares por intermédio da clínica, percebo na prática que o trabalho é o local privilegiado para o estabelecimento de iniciativas de prevenção do uso prejudicial de álcool, tabaco e outras drogas, porque é possível alcançar um número maior de pessoas. Com o tempo, fui ampliando o olhar sobre a prevenção, as necessidades das empresas, que surgiam por conta da preocupação com a segurança. Hoje, sei que salvamos vidas a partir da informação, educando e ajudando os empregados a reverem suas crenças e a levarem uma vida socialmente responsável, com mais qualidade, e auxiliamos os empregadores a quebrarem as barreiras da negação e a terem um novo olhar a respeito da importância de um ambiente de trabalho mais seguro, livre do álcool e de outras drogas. Conseguimos contribuir com os fatores de proteção e conscientizar sobre os fatores de risco.

Fico imaginando um funcionário que trabalha em uma empresa que tem a Política, leva para casa a cartilha que recebeu com orientação sobre o PRAD e pode conversar com seu filho ou familiares. Isso é ajuda direta e indireta, porque o PAP-PRAD não só ajuda ao empregado, mas também à empresa, à família e à comunidade. É o que tenho constatado ao longo da minha prática profissional e posso dizer que é extremamente gratificante.

9. Como o OBID pode contribuir para seu trabalho?

Colaborando para que os governantes tenham maior sensibilidade na construção de políticas públicas e assim estimular e apoiar as empresas na implantação do PAP-PRAD, a fim de levar mais prevenção para o ambiente de trabalho e para nossa sociedade como um todo. O Observatório pode também contribuir para a realização de pesquisas científicas e desenvolvimento de projetos para boas práticas de trabalho.

Selene Barreto é Psicóloga Clínica e consultora em Empresas. Pós-graduada em Prevenção de Drogas pela Universidade Candido Mendes, com MBA em Gerência de Saúde, EPGE/FGV, é Fundadora e Diretora da Evolução Clínica e Consultoria, desde 2003. Foi responsável pelo Desenvolvimento e Implementação de Sistema de Tribunais para Dependentes Químico, em parceria com Consulado Americano e National Drug Court Institute, em 1999; Diretora de Responsabilidade Social da REDE PETRO RIO 2019 - 2021; Vice-Presidente da ABEAD (Associação Brasileira de Estudo de Álcool e Drogas), de 2013 a 2015; e Presidente da ABRAD (Associação Brasileira de Álcool e Drogas) nos períodos de 1998 a 2000 e de 2004 a 2006.