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Entrevista com a psicóloga e psicoterapeuta

Roberta Payá


Por que a terapia de grupo tem sido amplamente utilizada no tratamento de dependentes químicos?
Com um histórico rico e de longa data, a terapia de grupo é uma forma popular de tratamento para diversas disciplinas como a psicologia, psiquiatria, assistência social e também indicada a um vasto grupo de problemas clínicos como transtorno de ansiedade e de humor, obesidade e transtorno pós-traumático, entre outros. Já no campo da dependência química é a modalidade de tratamento mais comum.
Por isso que, ao longo das últimas décadas, a terapia de grupo emergiu como um dos instrumentos mais populares no tratamento da dependência química e, em suas variadas modalidades, costuma integrar os mais diferentes tipos de programas terapêuticos.
Sua popularidade se deve a dois fatos: primeiro pelo suporte social dado aos participantes, retomando ao longo do tempo um senso de rede, de identificação e pertencimento, ingredientes fundamentais para um bom desfecho no tratamento. Segundo pela habilidade de tratar diversos pacientes ao mesmo tempo com um melhor custo benefício quando comparado com terapia individual.
A ampla utilização dessa abordagem está baseada no consenso dos especialistas de que a psicoterapia de grupo é uma intervenção valiosa com dependentes, podendo ser aplicada em tratamentos de diferentes substâncias como nicotina, álcool, cocaína, anfetaminas, entre outras, assim como em diferentes fases motivacionais do tratamento.
Em complemento à formação e condução de um grupo pode ser oferecida em contextos diversos, como em ambulatórios, clínicas, comunidades, escolas, hospitais e outros.

Quais as técnicas mais recomendadas de terapia de grupo para a dependência química?
Quando a técnica grupal é utilizada no tratamento da dependência química muitas vezes conteúdos subjetivos de grande relevância para o comportamento e sua manutenção podem se “cristalizar” ainda mais (quando prevalece a resistência à mudança), como também podem se flexibilizar, dependendo da forma como são abordados.
É imprescindível ter clareza do objetivo a ser alcançado com as dinâmicas de grupo, fator que contribui, entre outras coisas, para a adequação das técnicas, evitando, por exemplo, o emprego de dinâmicas complexas para atingir objetivos modestos. Não se recomenda fazer uso de técnicas/dinâmicas para depois pensar nos objetivos. A compreensão dos fenômenos grupais da dinâmica do grupo é necessária para o seu manejo, para a situação prática: na organização da ação do coordenador, no saber lidar com vários momentos do processo grupal e no uso de recursos técnicos adequados de mudanças.
Outro sentido que o termo “dinâmica de grupo” tomou foi o de ser um conjunto de técnicas para o desenvolvimento de habilidades humanas. Entre as técnicas indicadas para a intervenção grupal e tratamento da dependência química destacam-se técnicas para a construção do processo de tratamento:
- Técnicas motivacionais segundo a Abordagem da Entrevista Motivacional
- Técnicas de Integração e Formação do Grupo
- Técnicas de Prevenção de Recaída
- Técnicas para promoção de habilidades sociais
- Técnicas de comunicação e assertividade

Além disso, conforme o perfil do grupo, destacam-se técnicas especificas:
- Para grupo de mulheres
- Adolescentes
- Terceira Idade
- População de Risco
- População LGBT
- Pacientes com Danos Cognitivos
- Pacientes com comorbidades psiquiátricas e clínicas.

Quais as vantagens de se utilizar a terapia de grupo?
A terapia de grupo no tratamento da dependência química oferece algumas vantagens frente a outros tipos de modelos interventivos porque inclui fatores relevantes como: suporte positivo de pares; senso de isolamento reduzido; exemplos realistas de mudanças e condutas assertivas quanto à prevenção de recaídas de outros membros; partilha constante de informações entre os membros e os coordenadores; um ambiente familiar que pode ser oferecido a partir de um senso de acolhimento e pertencimento construídos entre os integrantes; treinamento de habilidades sociais; estímulo da autoeficácia; pelo fato de ser uma intervenção que oferece suporte e ajuda para vários participantes ao mesmo tempo; por sua estrutura pautar-se em regras, normas e horários, gerando assim um cenário de ordem aos membros; e finalmente por ser uma intervenção que mantém uma atmosfera de esperança, suporte e encorajamento necessários para um comportamento livre do abuso ou dependência de substancias.

Em síntese destacam-se os componentes:

- Da socialização;
- Identificação de narrativas e comportamentos favorecendo a promoção de mudanças e habilidades sociais;
- Pertencimento, fortalecendo a rede social como importante fator de proteção e mantenedor da motivação, abstinência e mudanças;
- Pela agilidade de tratar diversos pacientes ao mesmo tempo com um melhor custo benefício quando comparado com terapia individual;
- Por haver um consenso de que a psicoterapia de grupo é uma intervenção valiosa com dependentes, podendo ser aplicada em tratamentos de diferentes substâncias;
- E devido o fato de ser uma intervenção viável e possível em contextos diversos, como em ambulatórios, clínicas, comunidades, escolas, hospitais e outros.

Quais referenciais teóricos embasam a terapia de grupo?
Os modelos de terapia de grupo mais indicados pela literatura são:
- O Modelo Psicoeducacional, de caráter educativo aos usuários, explora conceitos e dados que devem ser partilhados entre os membros, como forma de desmistificar crenças e ideias errôneas ao longo do abuso por um tipo de substancia, ou seu efeito e consequências, bem como para esclarecer a dinâmica e funcionamento de qualquer tipo de tratamento, incluindo o medicamentoso.
- Treinamento de Habilidades, o qual explora habilidades necessárias para o cumprimento de metas e da manutenção da abstinência; Com base teórica na terapia cognitiva, este modelo procura desenvolver atitudes assertivas frente situações recorrentes ao longo do tratamento, bem como de situações pessoais dos membros, como por exemplo um desafio no trabalho, anseios frente tomadas de decisões e etc.
- Grupos de Apoio que promovem um contexto de partilha e troca frente questões diárias relacionadas a gatilhos, recaídas e abstinência;
- Grupos Interpessoais que focam com maior profundidade questões pessoais e que exercem uma relação direta com o comportamento de uso e abuso de substâncias. Problemas associados a questões emocionais como angústia, raiva, frustração, bem como vergonha, todos estes relatados com certa frequência entre os usuários, também podem favorecer a estrutura deste modelo;
- Dentre a gama destes modelos o grupo de Terapia Cognitiva mostra-se bem indicada. Uma de suas razões é de ter desenvolvido ao longo dos anos um protocolo de aplicabilidade. Seu foco é explorar pensamentos, crenças e ações que mantém o comportamento dependente. Além disso sabe-se que o grupo de TCC são favoráveis nas fases iniciais de tratamento;
Outros modelos relevantes e comuns são os que focam práticas ocupacionais, e/ou culturais que perpassem dificuldades comunicacionais ou de expressão, a prevenção de recaídas. Neste último, o grupo pode assegurar um espaço mantenedor não só da abstinência, mas também como meio dos clientes elaborarem suas dificuldades pessoais e relacionais frente à manutenção da mesma; por intermédio do grupo e do que cada cliente experiência.

Quais os critérios para os dependentes químicos participarem?
Conforme abordagens especificas e settings terapêuticos distintos alguns critérios vão variar. De certo modo há uma combinação de aspectos norteadores para a formação de grupos que devem ser averiguados:

- Quando o grupo aberto ou fechado
- Se o grupo é homogêneo ou heterogêneo (tipo de substância, nível sócio- econômico, faixa etária e sexo, diferente em consultório particular ou internação)
- “Minorias”: mulheres, adolescentes, homossexuais, moradores de rua...
- Condição e papel do terapeuta e a importância do Co-terapeuta, bem como da equipe multidisciplinar
- Quais pacientes respondem terapeuticamente pelo grupo, ou se é indicado o contato individual

Contra indicações:
- Funcionamento Psicótico
- Pessoas com nível acentuado de agressividade, perversidade e/ou transtorno de personalidade
- Pessoas com Danos Cognitivos
- Pessoa de reconhecimento público – o contrato deve ponderar como o grupo acolhe pessoas públicas, e vice-versa
- Intoxicados ou pouco convictos quanto a abstinência – a depender da política de abstinência ou redução de danos do serviço
- Parentesco – pacientes familiares geralmente é contra indicado
- Relação de trabalho – grupos em empresas por exemplo devem se a ter a questões de hierarquia e confiabilidade

Como a terapia de grupo funciona para os familiares de dependentes químicos?
Grupos para Familiares e rede dos usuários são intervenções bem estabelecidas. Não se discute mais a importância de trabalhar as relações e conexões de pacientes no tratamento. Por si só vale pensar no núcleo familiar como o primeiro grupo de identificação, e formação de valores e normas relacionais. O trabalho com relativos e familiares é bem estabelecido no campo de tratamento, pois a família exerce papel de proteção e/ou de risco para o desenvolvimento do problema ou para a promoção de mudanças.As relações interpessoais são de grande influência na estruturação do pensamento e das atitudes de cada um, e ao focarmos nas relações explora se fatores de risco e proteção, situações codepentenes, atitudes e comportamentos gatilhos ou promotores de autonomia.No geral, toda e qualquer família pode se beneficiar de técnicas psicopedagógicas sobre como lidar com a dependência química. Por outro lado, famílias “patologicamente” estruturadas, ou mais vulneráveis necessitam de tratamento mais aprofundado, sendo indicada a psicoterapia familiar.

Em termos de modalidades, podemos trabalhar com:
- Psicoterapia familiar
- Grupos de pares
- Grupo uno-familiar
- Grupos de multifamiliares
- Psicoterapia de casal
- Grupo de educadores, grupo de irmãos e variações

O que a motiva a trabalhar com este tema?
O trabalho com grupos, redes e famílias é essencial para a promoção de saúde. Toda via de socialização, e contextos que gerem o senso de pertencimento e rede criam e fortalecem fatores protetores para pacientes e pessoas que apresentam vulnerabilidades. São estes aspectos que motivam e reforçam meu trabalho nesta área há mais de 20 anos. Além disso, práticas inclusivas como a intervenção grupal são necessárias para o campo de tratamento da dependência química.

Como o Obid pode ajudar em seu trabalho?
Há muitas ações e frentes de trabalho voltadas para saúde, educação e assistência, no entanto, precisamos constantemente atualizar e catalogar dados e diretrizes que norteiem o trabalho geral de políticas, de tratamento e prevenção em álcool e drogas. O OBID exerce um papel importante diante de tais necessidades, como uma plataforma que reúne saberes, nos serve como uma ferramenta atual para nossas práticas.

Roberta Payá é psicóloga, psicoterapeuta familiar e de casal, doutora em Ciências (Saúde Mental) – UNIFESP, mestre em Terapia Familiar Sistêmica pela Universidade de Londres, especialista em Dependência Química pela UNIAD, especialista em Família e Casal pela PUC/SP, educadora em Sexualidade pela UNISAL-SP, membro do Grupo de Pesquisa em Sexualidade pelo CNPq / Unisal-SP, membro da Associação Paulista de Terapia Familiar (APTF) e da Associação Brasileira de Álcool e Drogas (ABEAD).