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2/9/2019

Entrevista com a psicóloga

Neliana Buzi Figlie   



Qual a importância da Entrevista Motivacional no tratamento da dependência química?
Em meados dos anos 1980, com predomínio das abordagens confrontativas no tratamento de dependentes de álcool, a motivação para se tratar era vista como um traço (algo difícil de ser modificado) e não um estado de personalidade (que pode oscilar). Nesse contexto, William Miller, nos Estados Unidos, e Steve Rollnick, na Inglaterra, desenvolveram a Entrevista Motivacional, afirmando que as abordagens confrontativas serviam de maneira iatrogênica para evocar a resistência, podendo causar até mesmo um efeito contraproducente. A Entrevista Motivacional consiste em uma abordagem de sensível utilidade em variados estágios de tratamento e especialmente útil no auxílio de pessoas com problemas de abuso de substâncias que estejam ambivalentes ou resistentes. A ambivalência aqui é compreendida como “a probabilidade de que uma pessoa inicie, dê continuidade e permaneça num processo de mudança específico”. A Entrevista Motivacional é centrada no cliente, com um método diretivo para aumentar a motivação intrínseca para mudar por meio da exploração e resolução da ambivalência.

Como estimular o (a) dependente químico (a) a ter motivação para a mudança?
Atualmente, os autores definem a Entrevista Motivacional como sendo uma conversa colaborativa sobre mudança que se destina a reforçar a motivação pessoal e compromisso com um objetivo específico, recolhendo e explorando as próprias razões da pessoa para a mudança dentro de uma atmosfera de aceitação e compaixão. Eis aqui um termo novo e provocativo, a fim de tentar consolidar entre os profissionais uma revisão em sua própria postura interna no trato com o cliente: a compaixão. Para atuar de acordo com a essência da Entrevista Motivacional não basta o profissional se abster de interagir negativamente julgando, culpando ou criticando seu cliente. É necessário ir além, se apresentando de forma positiva, atenciosa e num clima de aceitação. O trabalho realizado dentro dos princípios da Entrevista Motivacional deve inspirar a mudança e fortalecer o compromisso. Certamente isso envolve o funcionamento de todas as nossas emoções, incluindo a capacidade de amar, ter esperança, interesse, compaixão e alegria.

Como lidar com a resistência e a negação?
A Entrevista Motivacional propõe a expressão da empatia e a escuta ativa como estilo terapêutico que deve estar presente durante todo o processo ao convidar o profissional a acompanhar a resistência do cliente, devolvendo a ele a responsabilidade de suas próprias decisões e se destituindo do papel de “solucionador de problemas”. Quando o profissional estimula a auto eficácia no cliente (crença da própria pessoa em sua habilidade de enfrentar uma tarefa ou desafio específico, considerada um elemento-chave no processo de motivação para a mudança e um fator preditivo do sucesso no tratamento), o profissional reconhece que a esperança, a fé e as expectativas interferem no processo de recuperação da pessoa e, com isso, ocorre o aumento da efetividade do tratamento. Outro ponto interessante da Entrevista Motivacional é que nós não falamos em resistência, pois automaticamente a resistência implica argumentar e contra argumentar, quase um processo de persuasão e convencimento. Na Entrevista Motivacional, falamos em momentos de discordância de opiniões e que, nesse sentido, podemos conversar sobre diferentes posicionamentos, mas de forma colaborativa e respeitosa, de modo a fomentar a auto eficácia, e não a defesa de opiniões.


O que é escuta reflexiva?
Na escuta reflexiva o profissional devolve ao cliente o que ele falou, sem julgar, levantar hipóteses ou pressupor. O melhor exemplo é a imagem refletida no espelho: essa imagem é fiel. O outro se reconhece nela e, nesse sentido, aumentam as chances de desenvolver uma conversa colaborativa. Ao refletir, o profissional se coloca na relação, mas, ao mesmo tempo, deve ser fiel ao que o cliente disse. A relação com o cliente é autêntica e deve permitir que ele exprima abertamente seus sentimentos e atitudes sobre o seu comportamento e o processo mudança. Oferecer uma escuta reflexiva requer treinamento e prática para pensar reflexivamente. O processo de escuta ativa requer: atenção cuidadosa ao que o cliente diz; visualização clara do que foi dito; formulação da hipótese concernente ao problema, sem suposições ou interpretações; atuar com comunicação não defensiva. Avaliar a comunicação não-verbal mediante a recepção da reflexão também é imprescindível. As pessoas não se comunicam apenas por palavras.

Existem etapas motivacionais?
Na Entrevista Motivacional falamos em processos da intervenção como uma escada onde temos que trabalhar degrau por degrau, a saber: 

- Planejamento 
Pedir permissão antes de oferecer informações
Oferecer informação (Evocar-Prover-Evocar)
Convidar o cliente a estabelecer metas (Plano de Mudança)
Manejar as barreiras a mudança 

- Evocação
Identificar e responder a ambivalência
Evocar falas de mudança
Acessar a prontidão para a mudança

-  Foco
Convidar o cliente a selecionar um tópico para aprofundar
Apresentar uma lista de tópicos, se o cliente não estiver seguro
Cliente seleciona o tópico (ambivalência) com suas próprias razões, valores e justificativas

- Engajamento
Oferecer uma recepção calorosa
Apresentações
Construir rapport
Estabelecer o tempo da intervenção
Conversar sobre o que é esperado da intervenção
Determinar a razão da procura

Como a Entrevista Motivacional trabalha a recaída?
Em vez de reagir à recaída como um sinal de fracasso pessoal caracterizado por conflito, culpa e atribuição interna (a si mesmo), o cliente é convidado a aprender a reconceitualizar o episódio de modo a listar os pros e contras e se comprometer com uma mudança que ele consiga realizar, aprendendo a lidar com a prevenção de recaídas.

A Entrevista Motivacional pode ser aplicada em outras patologias, em outros campos do conhecimento?
Atualmente, ela é utilizada para o tratamento de qualquer problema de saúde mental e física, área da educação, área da assistência social e área da justiça.

O que a motiva trabalhar com este tema?
A melhora da efetividade dos tratamentos no Brasil, principalmente na área da Síndrome do Uso de Substancias, que ainda é muito confrontativo. A Entrevista Motivacional prega a necessidade de abordar não só a forma do profissional pensar o dependente de substâncias, mas também de receber essa pessoa com suas ambivalências, conflitos e dilemas, pois esse será o principal ingrediente de sucesso na Entrevista Motivacional.

O que representa o Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid) para seu trabalho?
O Obid é responsável por disseminar informações confiáveis e científicas sobre drogas, o que inclui pesquisas realizadas em território nacional, estatísticas e indicadores. Trata-se de um importante canal de comunicação de conhecimentos e referência para pesquisadores e profissionais que trabalham com a assistência a dependentes químicos e na formulação de políticas públicas, atendendo não só a academia, mas também a sociedade em geral, como usuários, familiares, gestores e profissionais.

Neliana Buzi Figlie é psicóloga, especialista em Dependência Química (UNIAD), mestre em Saúde Mental e doutora em Ciências pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É associada ao Motivational Interviewing Network of Trainers (MINT), com formação em Entrevista Motivacional pela University of New Mexico (Center on Alcoholism, Substance Abuse and Addictions – CASAA).