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12/11/2019

Entrevista com psicóloga

Neide A Zanelatto


Quais são os pressupostos básicos das Terapias Cognitivo Comportamentais (TCC)?
As Terapias Cognitivo Comportamentais (TCCs) surgiram na década de 60, num momento onde havia uma insatisfação com o modelo psicodinâmico e acreditava-se que as terapias comportamentais não explicavam de forma abrangente o comportamento humano. Além disso, cresciam o interesse de terapeutas nos modelos cognitivo comportamentais, bem como as publicações nesta área. As TCCs partem do pressuposto que as cognições (forma como o indivíduo interpreta os eventos à sua volta) determinam os seus comportamentos, seus sentimentos e suas reações fisiológicas. São terapias de caráter educativo, realizadas em tempo limitado, que enfatizam o autocontrole por parte do cliente e são orientadas para a mudança cognitiva.

Como as crenças influenciam os pensamentos e os comportamentos deles decorrentes?
Segundo este modelo teórico, as crenças centrais são estruturadas desde a infância, a partir de experiências com os pais, irmãos e outros modelos socializadores. São afirmações absolutistas a respeito de nós mesmos, dos outros e do mundo e funcionam como orientações gerais para a seleção, organização e interpretação de cada situação. Assim sendo, nossas crenças determinam como serão interpretados os eventos ao nosso redor, e consequentemente, determinam nossos comportamentos.

O que são pensamentos automáticos?
Representam um nível mais superficial de pensamento, que vêm espontaneamente às nossas mentes durante o dia. Podem ser palavras, imagens ou recordações e são eliciados a partir de situações corriqueiras do nosso dia -a -dia. Sempre que temos um estado de humor forte, há também pensamentos automáticos presentes, que se identificados, podem nos auxiliar a compreender como foram as emoções e os comportamentos consequentes. Habitualmente não estamos atentos a estes pensamentos e ao que eles produzem em nós. A terapia cognitivo comportamental tem como o objetivo primeiro auxiliar na identificação destes pensamentos, de modo a partir da sua identificação proceder à avaliação da funcionalidade deste pensamento.

Como a TCC entende o Transtorno por Uso de Substâncias (TUS)?
O modelo cognitivo do Transtorno por Uso de Substâncias preconiza que, diante de um determinado estímulo, seja ele, interno ou externo, crenças sobre nós e sobre as substâncias são eliciadas e estas crenças determinam pensamentos automáticos (em geral positivo em relação às substâncias). 

Estes pensamentos levam à fissura (vontade, desejo de uso) que por sua vez, gera um estado de ambivalência, que será resolvido a partir da formação de uma crença permissa. Esta crença permissiva funciona como uma autorização para uso, e a consequência desta crença é um comportamento que levará ao uso da substância.

Como se pode utilizar a terapia cognitivo comportamental no tratamento do TUS?
Os estudos de efetividade apontam este modelo teórico como o padrão ouro no tratamento deste transtorno. O objetivo principal é tornar o indivíduo consciente do processo cognitivo que antecede o comportamento de uso. O paciente deve estar consciente de que o uso não acontece de repente, e de que há possibilidade de um grau de controle sobre este comportamento. Se o indivíduo for capacitado para identificar o primeiro pensamento que leva ao uso, ele poderá se colocar no locus de controle para evitar uma recaída. O questionamento das crenças sobre as substâncias é um passo importante para a mudança de comportamento. Quanto mais positivas forem estas crenças maior a chance de uso.

Quais técnicas cognitivo comportamentais que podem ser utilizadas no tratamento do TUS?
A principal técnica cognitiva é o questionamento socrático, ou seja, o paciente é treinado a avaliar seus pensamentos sobre as substâncias, de modo a torná-los os mais funcionais ou realistas. Não se trata de pensamento positivo ou negativo, mas sim de pensamento funcional, baseado em evidências de realidade. 

Quanto mais funcional o pensamento, melhor o humor, mais adequado o comportamento. A distração e os cartões de enfrentamento também são técnicas cognitivas muito utilizadas no tratamento, bem como o experimento comportamental, que ajuda o paciente na avaliação das crenças. As técnicas de relaxamento, o ensaio comportamental são técnicas comportamentais bastante utilizadas.

Quais os passos principais para um plano de metas para ser utilizado no pós alta de internação?
A internação, como sabemos, é o começo do tratamento. A continuidade deste tratamento se dará a partir de um plano de tratamento que incluirá um projeto de mudança de estilo de vida mais amplo, realizado em várias áreas da vida do indivíduo. O questionamento e a construção de crenças mais funcionais a respeito de si, do mundo e dos outros é uma das metas importantes do tratamento, bem como a identificação das situações de risco para a recaída e o desenvolvimento de habilidades de enfrentamento. O treino em habilidades de comunicação e de resolução de problemas, bem como no manejo de questões de ordem mais interna são fundamentais para a manutenção do processo de mudança.

O que o motiva a trabalhar com este tema?
A crença de que pacientes com transtorno por uso de substâncias devem ser acolhidos e se forem acolhidos de forma individualizada, com um tratamento customizado (desenhado para cada necessidade), terão condições de manejarem seu transtorno, tendo oportunidades como qualquer outro indivíduo de terem uma vida com qualidade.

Como o OBID pode contribuir para seu trabalho?
O OBID tem se mostrado como uma fonte importante de informação sólida e atualizada, sobre os temas de políticas públicas para tratamento e prevenção ao uso de álcool e outras substâncias. Tudo que está relacionado ao assunto drogas ainda carrega muito estigma, preconceito, e neste sentido, este observatório tem sido uma ferramenta importante de disseminação de informação para profissionais, pesquisadores e para todos aqueles que precisam e desejam conhecer mais sobre este tema de forma objetiva e clara.

Neide A Zanelatto é psicóloga clínica pela UMESP, Especialista em Dependência Química pela UNIFESP, Mestre em Psicologia da Saúde pela UMESP, Coordenadora e Docente da UPPSI – Unidade de Aperfeiçoamento Profissional em Psicologia e Psiquiatria.