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6/12/2019

Entrevista com o especialista em dependência química 

Mauricio Landre


Qual é a missão da Comunidade Terapêutica?
A Comunidade Terapêutica como Modelo para acolhimento e tratamento do Transtorno por Uso de Substâncias – TUS, numa abordagem psicossocial e de convivência, tem como objetivo principal tratar o transtorno (desorganização) do indivíduo e consequentemente, auxiliar o indivíduo na mudança do seu estilo de vida e de sua atual identidade, desenvolvida através do hábito de usar substâncias.Para entender esse processo, imaginemos uma pessoa que tem a necessidade de se adequar a uma nova cultura, desenvolvendo hábitos e valores para que essa cultura propicie o que deseja e o que necessita. O início é difícil, há um choque de valores, mas, com o tempo e a necessidade, no caso das drogas pelas suas características viciantes, a pessoa se vê desempenhando esse novo estilo de vida, quase que automaticamente.

Como os dependentes químicos podem se beneficiar de um acolhimento em Comunidade Terapêutica?
A comunidade Terapêutica é um modelo que atende pessoas com comprometimento grave (excluindo comprometimento biológico e psicológico graves) para se beneficiar da metodologia, mas, fundamental é que ele tem que manifestar (por escrito) que aceita o participar do programa, ou seja, é um acolhimento voluntário.Fazendo isso, já inserido no programa, participar das atividades ativamente o ajudará a desenvolver os valores e comportamentos necessários para lidar com as dificuldades ou características culturais, sociais e familiares que encontrará no retorno à sociedade.

Qual a metodologia mais utilizada nas Comunidades Terapêuticas?
A metodologia mais utilizada é a vivência dessa cultura durante o processo de acolhimento. Os 12 Passos, o reencontro com o Trabalho e seu valor terapêutico e social e, a Espiritualidade são juntamente com a experiência da vida comunitária, os grandes determinantes de uma construção de consciência que o auxiliará nas situações de risco, de crise e de tomadas de decisões com qualidade. Outras ferramentas vem surgindo para compor esse leque de opções terapêuticas como Prevenção de Recaída, Psicoterapia Grupal e Individual, Mindfulness baseado em Prevenção de Recaída e outras técnicas importantes.

Qual a importância da família neste contexto?
A família é o maior fator de proteção que temos para diferentes problemas sociais como uso de drogas, gravidez precoce, comportamentos antissociais e, sendo assim, influenciam diretamente se não no uso precoce como no reforçamento do uso por permissividade ou por autoritarismo e controle excessivo. Já nas pessoas que já estão comprometidos com uso crônico, a família também poderá exercer um papel importante, seja como um grande fator de proteção como de risco caso essa família não se trate e não aprenda a lidar com a codependência (desorganização dos membros da família em função da desorganização do seu ente querido) e, consequentemente, com o dependente em recuperação.

Para entender melhor, imagine um acolhido que viveu uma etapa de sua recuperação em um ambiente onde todos têm objetivos em comum, se ajudam, confiam uns nos outros, participam da vida um do outro, onde existe diálogo e respeito às diferentes necessidades. Saindo da CT ele volta para o convívio familiar onde as pessoas pouco se veem, se falam, se conhecem e se respeitam (infelizmente é assim o cotidiano de um grande número de famílias de dependentes), não falam de suas vidas, não se ajudam mutuamente, não mudam hábitos e valores, não demonstram confiança uns nos outros. A tendência é que esse indivíduo se distancie da programação e isso pode leva-lo à recaída.

O que explica o sucesso e a eficácia das Comunidades Terapêuticas?
A Comunidade Terapêutica é eficaz no acolhimento e reabilitação de pessoas com TUS por diferentes fatores e características como: ambiente protegido das drogas e dos comportamentos e valores antissociais que estimulam relacionamentos pautados no respeito, na ajuda mútua - uma rotina e um cronograma que mantem o(a) acolhido(a) em movimento, ocupado e atuando diretamente no processo da sua reabilitação, ferramentas e atividades que o(a) auxiliam no processo de autoconhecimento e no enfrentamento das dificuldades e/ou novas oportunidades. O acolhimento em comparação com outros modelos e técnicas é bem mais acessível, principalmente com a iniciativa do Governo Federal por meio da Secretaria de Cuidados e Prevenção às Drogas – SENAPRED que vem financiando e fiscalizando essas Instituições.

Que estágios de motivação para a mudança são mais frequentes entre os acolhidos?
O estágio da negação e, consequentemente da racionalização, é o estágio mais comum nos indivíduos com TUS e podemos vê-lo, mesmo já com comprometimento grave em muitos indivíduos que acreditam que não têm problemas com o uso e param quando quiser. Já para aqueles que aceitam ou procuram ajuda, a ambivalência é muito forte nos primeiros 90 dias do processo, principalmente nos primeiros 10 dias.

 Essa fase da motivação ora deixa claro para ele o seu comprometimento, ora ele acredita que pode conseguir lá fora, que já está bem etc.

Que estágios de motivação para a mudança são mais frequentes entre os familiares?
Acredito que a dificuldade da família reside na polarização de suas atitudes, emoções e pensamentos sobre o(a) usuário(a) com TUS, ora extremamente preocupados com muita dó e saudades deles(as), ora com raiva e com as perdas e o medo de novas situações ruins acontecerem reagem com autoritarismo ou radicalismo diante de quaisquer situações para prometem premiações se ficarem  e ocultam comportamentos de uso em saídas para não “prejudica-los”. Ora não confiam e qualquer situação é uma afronta à recuperação.

O que o motiva a trabalhar com este tema?
Eu me recuperei em 1997 na Comunidade Terapêutica Fazenda do Senhor Jesus, do Instituto Padre Haroldo e, desde então, encontrei nos princípios e valores oferecidos por essa modalidade um sentido de vida que realmente me ajudou a enfrentar esse mundo cheio de contradições e enfrentar a mim mesmo e meus medos. Decidi dar continuidade nesse processo que descobri ser de médio a longo prazo (pelo menos uns 2 anos para consolidar a mudança que desejava e necessitava). Essa decisão me aproximou mais do programa, da equipe e dos acolhidos e, progressiva e intensamente nasceu um desejo de ajudar outras pessoas, percebendo que isso me ajudava. Daí para o Curso da Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas – FEBRACT, a Faculdade de Serviço Social, para o Curso de Aconselhamento e Especialização em Dependência Química pela UNIFESP e outras capacitações foi um caminho contínuo e complementar. Amo o que faço.

Como o Obid pode contribuir para seu trabalho?
Acredito que o Observatório já contribui muito para profissionais e pessoas que buscam formação, conhecimento e dados importantes sobre essa problemática e alternativas para o tratamento. Creio que pode melhorar divulgando junto à sociedade e estudantes em geral, desde o ensino fundamental até o ensino médio com temas e assuntos que auxiliem também na prevenção e no interesse por esse assunto, tão presente na vida das famílias e das escolas brasileiras.

Mauricio Landre é formado em Serviço Social pela PUC-Campinas, conselheiro em Dependência Química pela Federação Latino-americana de Comunidades Terapêuticas - FLACT e pela Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP, especialista em Dependência Química pela UNIFESP, coordenador Técnico da Comunidade Terapêutica Rural Santa Carlota do Instituto Bairral e consultor das Fazendas da Esperança