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21/10/2019

Entrevista com a psicóloga clínica

Laura Fracasso


Como a Comunidade Terapêutica se formou no Brasil?
A Comunidade Terapêutica que utiliza equipe multidisciplinar e mista (profissionais e dependentes em recuperação) foi fundada em 1978 por padre Haroldo Rahm em Campinas e foi denominada Fazenda do Senhor Jesus. Este modelo, que une a experiência de vida do dependente e o conhecimento científico do profissional, é o que tem se mostrado o mais eficaz no enfrentamento do Transtorno do Usuário de Substâncias (TUS). Importante ressaltar que Padre Haroldo sempre incentivou a inclusão do profissional no tratamento e também mantinha um programa de bolsas de estudo para os dependentes em recuperação darem continuidade aos estudos e assim formou muitos profissionais que hoje estão à frente de diversos serviços no Instituto Padre Haroldo e em outros serviços renomados.

Em sua experiência como se deu o desenvolvimento das Comunidades Terapêuticas no Brasil?
Infelizmente se deu de um modo desordenado e sem a devida legislação o que nos colocou em situações de ilegalidade, desserviço e até de má fé porque muitos oportunistas se aproveitaram deste cenário para criarem serviços intitulados Comunidades Terapêuticas (CTs) e que na verdade não se adequavam aos critérios do modelo e método das CTs. Foram anos de enfrentamentos para, finalmente, conseguirmos o reconhecimento e a legalização para normatizar nossos serviços. Nossa primeira conquista foi em 2001 com a RDC 101/01 e, atualmente, com a nova Política sobre Drogas e o Marco Regulatório. Estas conquistas estão possibilitando que as Comunidades Terapêuticas idôneas participem dos serviços de referenciamento aos dependentes, familiares e rede significativa.

Que lições podemos aprender com as ações exitosas das Comunidades Terapêuticas?
Eu listaria algumas delas: acreditar no nosso modelo e método; não desistirmos frente aos enfrentamentos e desrespeitos que sofremos e ainda estamos sofrendo; termos nos preparado tecnicamente para fazer os enfrentamentos necessários e nos unirmos em Federações para nos fortalecermos diante do cenário ostensivo que enfrentamos e , principalmente, documentarmos, avaliarmos e monitorarmos todo o processo para podermos demonstrar com pesquisa científicas a validade do nosso método.

Qual a importância do Projeto Terapêutico Individual nas Comunidades Terapêuticas?
A Comunidade Terapêutica tem o foco no tratamento comunitário porque a força deste modelo está nos pares para a mudança de estilo de vida, mas para que o indivíduo possa ser atendido nas suas singularidades é necessário que haja o Projeto Terapêutico Individual para identificar e reconhecer as demandas que cada indivíduo e família apresentam. 

A diversidade é grande e precisamos respeitar a história familiar e individual para propor intervenções que possam de fato impactar no processo de tratamento e mudança de estilo de vida.

Alguma necessidade que em sua experiência seja relevante nas Comunidades Terapêuticas?
A necessidade dos serviços darem atenção ao tratamento dos familiares porque o transtorno dos usuários de substâncias impacta em todo sistema familiar e sem o tratamento dos familiares estaremos oferecendo um tratamento limitado e com poucas possibilidades de eficácia.

Qual a relevância da espiritualidade neste contexto?
Indivíduos que estão em um processo autodestrutivo precisam encontrar um sentido de vida e este exercício de busca só será possível com o desenvolvimento da espiritualidade. O transtorno é de natureza biopsicossocial e espiritual o que significa que não é possível tratar o transtorno de usuários de substâncias sem considerar a dimensão espiritual. Bill e Bob já tinham reconhecido esta dimensão quando fundaram a irmandade de Alcoólicos Anônimos e, hoje, temos pesquisas científicas que trazem a importância da espiritualidade tanto como fator protetivo ao uso de substâncias quanto no processo de recuperação.

Quais são os benefícios do acolhimento nas Comunidades Terapêuticas?
A indicação de acolhimento em CTs só será benéfica se houver uma avaliação do grau de comprometimento e respeito aos critérios diagnósticos para que o acolhimento aconteça. 

Faço esta observação porque é muito comum que o acolhimento seja feito sem o respeito aos critérios e acabe impactando negativamente no processo. Considerando que os critérios foram respeitados teremos a possibilidade de ofertar um processo de desintoxicação e, o mais importante, mudança no estilo de vida através da convivência entre os pares em um ambiente livre de substâncias e acompanhamento profissional de todo o processo.

O que a motiva a trabalhar com este tema?
Minha motivação começou pela dimensão espiritual em um momento da minha vida profissional que eu estava em crise. Não me sentia feliz em dar continuidade ao trabalho que exercia (psicologia organizacional) e comecei a buscar algo que fizesse sentido para mim. Tive a oportunidade de conhecer o trabalho em uma CT na cidade de Pádua, na Itália, e por eu não ter formação na área recebi a proposta de ficar 4 meses acolhida para experienciar o modelo. A proposta foi desafiadora e eu aceitei porque senti que seria uma oportunidade única de vivenciar o processo antes do conhecimento técnico. E não me enganei. Os 4 meses com os dependentes me conectaram com uma dor existencial muito profunda, um vazio da alma e a possibilidade de poder contribuir para o tratamento e a mudança de estilo de vida deram e dão um novo sentido na minha vida profissional e pessoal.

Como o Obid pode ajudar em seu trabalho?
O OBID tem sido uma grande referência para todos os profissionais e leigos que buscam dados nacionais confiáveis sobre o fenômeno do transtorno do usuário de substâncias em nosso país. A metodologia nos permite comparar os dados e nos orientar quanto as estratégias a serem utilizadas nas diversas e diferentes frentes que iremos abordar. Dados confiáveis são imprescindíveis para que as pesquisas sejam feitas e contribuam para que possamos oferecer aos usuários, familiares e sociedade em geral programas exitosos com evidências científicas. Sem dados não teremos pesquisas e sem pesquisas estaremos reféns de programas sem valor científico. Espero que o OBID continue sendo esta referência a nível nacional e internacional na produção de dados confiáveis de forma transparente e ética.

Laura Fracasso, psicóloga clínica, especialista em Dependência Química e Mindfulness pela Unifesp e conselheira do Conselho Deliberativo da Federação Brasileira  de Comunidades Terapêuticas .