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18/06/2020

Entrevista com a psicóloga

Edilaine Moraes 


1. De que maneira a dependência química afeta o indivíduo portador dessa doença?
A Dependência Química (DQ), que hoje é denominada Transtorno por Uso de Substâncias (TUS), invariavelmente afeta o indivíduo em todas as áreas de sua vida. A partir do momento que o consumo da substância passa a ocupar um lugar de grande importância na vida do indivíduo, as complicações decorrentes desse uso problemático irão se apresentar, com maior ou menor intensidade, em áreas como saúde física e mental, profissional, familiar, sócio comunitária, escolarização, relações afetivas, lazer, espiritualidade e etc.

2. Como a dependência química afeta filhos de dependentes químicos?
Filhos, em geral, são diretamente afetados por seus pais, tanto na questão genética /hereditária, quanto em valores e comportamentos. Isso também ocorre com os filhos de dependentes, que herdam uma genética que favorece o desencadeamento do TUS, além de vulnerabilidades que os colocam em situações desfavoráveis em relação ao próprio TUS, como outras patologias psiquiátricas.
Salvo raras exceções, o comportamento do dependente em seu ambiente familiar é caracterizado por agressividade - seja verbal ou física -, falta de atenção e afeto aos demais, egocentrismo, negligência com cuidados básicos de higiene, saúde, alimentação...
Como repercussões, os filhos podem desenvolver uma série de problemas mentais, emocionais e comportamentais, como baixa autoestima, ansiedade, depressão, transtorno de conduta, déficit de aprendizagem, relacionamentos disfuncionais, isolamento social, uso nocivo de substâncias químicas, entre outros.

3. Dentro do ambiente familiar, quem tem mais propensão de desenvolver um quadro de dependência química?
A prevalência do TUS ainda é maior nos homens (pais), mas infelizmente vem aumentando também entre as mulheres (mães). Contudo, há grande incidência também de irmãos mais velhos usuários/dependentes.


4. Há algum tipo de droga mais prevalente no contexto familiar?
Sim, o álcool e também o tabaco. Muitas vezes de forma isolada, mas também ocorre o uso concomitante de outras substâncias como maconha, cocaína, crack, benzodiazepínicos, anfetaminas, etc.

5. Que outros distúrbios podem ocorrer em uma família que tenha um ou mais dependentes químicos?
Além dos já citados, incluiria também a presença de conflitos familiares permeados por agressividade e falta de respeito como algo muito presente. A família toda acaba adoecendo. Não somente os filhos, mas também os cônjuges apresentam maior probabilidade de desenvolverem problemas, sejam emocionais, comportamentais, sociais, relacionais e etc.

6. Quais cuidados são recomendados a filhos de dependentes químicos?
a) Aumentar a exposição dos filhos a Fatores de Proteção – aqueles fatores que diminuem a probabilidade de ocorrência de um comportamento aditivo e/ou outros problemas emocionais, comportamentais, sociais e afetivo-relacionais. Eu citaria ter uma crença religiosa, estar inserido e frequentando o ambiente escolar e comunitário, participar de atividades culturais e de esporte/lazer, fortalecer o vínculo com familiares e amigos não dependentes, entre outros;
b) Evitar ou reduzir a exposição aos Fatores de Risco – fatores que aumentam a probabilidade de ocorrência dos problemas decorrentes do uso de substâncias, tais como: ausência de vínculos familiares saudáveis, ambiente familiar desestruturado, desinteresse e evasão escolar, amizades com outros usuários de substâncias, entre outros.
Cabe ressaltar que poderão coexistir, num mesmo âmbito, Fatores de Risco e Fatores de Proteção. Identificá-los e agir sobre eles com o intuito de reduzir os de risco e maximizar os de proteção torna-se o grande desafio das pessoas envolvidas com esta população, sejam familiares, amigos, educadores ou profissionais da área.

 

7. Como se explica o comportamento resiliente de determinados filhos de dependentes químicos?
Na área da Saúde, consideramos “resiliência” um conjunto de processos sociais e intrapsíquicos que possibilitam a um indivíduo desenvolver uma vida “sadia”, mesmo frente a um ambiente “insano”. A partir dos anos 1990, a resiliência passou a ser vista como uma imunidade psicológica que, embora possua características inatas, também pode ser desenvolvida.
Então, resiliente seria aquele que, mesmo estando submetido a grandes vulnerabilidades, consegue manter uma vida funcional, enfrenta e supera suas adversidades, sem vitimizar-se.
Uma possível explicação (mas, com certeza, não a única) para a resiliência em filhos de dependentes químicos está na capacidade de desenvolver habilidades sociais que lhes dê condições para o enfrentamento saudável de situações de risco para comportamentos inadequados. O desenvolvimento dessas habilidades pode ocorrer de muitas formas: seja por intermédio de um adulto significativo não usuário, de relações religiosas, comunitárias, educacionais, esportivas, terapêuticas e quaisquer outras que auxiliem esses filhos a acreditarem ser possível uma vida diferente daquela levada por seu parente dependente.

8. O que a motiva a trabalhar este tema?
A possibilidade de contribuir para a diminuição de um determinismo que sempre nos disse que “filho de peixe, peixinho é”; para que crianças e adolescentes passem a acreditar que uma vida diferente é possível.

9. Como o OBID pode ajudar neste tema?
Acredito que mantendo seu objetivo de ser realmente nosso Observatório Nacional, divulgando informações atuais, baseadas em evidências científicas de forma acessível e não excludente e aproximando, por meio de entrevistas como esta, pesquisadores, estudiosos e interessados em geral.

 

Edilaine Moraes é pós doutora em Psiquiatria e Psicologia Médica - UNIFESP - Universidade Federal de São Paulo, especialista em Dependência Química - UNIAD/ UNIFESP. Possui MBA em Economia e Gestão em saúde – GRIDES / UNIFESP. É coordenadora de cursos de extensão à distância – Aconselhamento em Dependência Química e Terapia Cognitivo Comportamental aplicada a Dependência Química, professora convidada de cursos de especialização e extensão presencial e à distância e atua principalmente com os temas Saúde Mental; Dependência Química; Entrevista Motivacional e Terapia Cognitivo Comportamental. É autora de artigos científicos e capítulos de livros relacionados à Dependência Química, Adolescência e à Economia da Saúde.