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24/4/2020

Entrevista com a especialista

Claudia Cristina de Oliveira Camargo


O que é Terapia Cognitivo-comportamental?
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma abordagem psicológica desenvolvida na década de 60, por Aaron Beck, a partir do movimento da Terapia Comportamental. Uma abordagem centrada no estudo objetivo e racional do comportamento humano, com elevado rigor científico e metodologias empiricamente embasadas. De maneira geral, o termo Terapia Cognitivo-Comportamental é utilizado para definir as terapias que usam tanto estratégias de modificação comportamental quanto de reestruturação cognitiva.
Inicialmente, nos anos 60 e 70, a TCC apresentou métodos para controlar depressão e ansiedade e, a partir dos anos 80 e 90, ocorreu o desenvolvimento de tratamentos para transtornos mentais mais graves, como esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar, dependência química, entre outros. O foco da Terapia Cognitivo-Comportamental é o desenvolvimento de tratamentos que auxiliem os pacientes a entenderem e controlarem suas doenças, de modo a reduzir os sintomas e os problemas relacionados à doença, além de resolver sintomas que não respondem totalmente à medicação (como o craving, por exemplo).

Como a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ser usada no tratamento da dependência química?
A TCC no tratamento da dependência química tem a finalidade de auxiliar o sujeito a identificar suas cognições (interpretações, pensamentos) a respeito do uso de substâncias, de modo que ele se torne capaz reconhecer quais são os estímulos internos (emocionais, psicológicos ou cognitivos) e externos (ambientais) que influenciam ou determinam o consumo da substância. Após ensinar o paciente na identificação dessas cognições, é importante treinar o paciente a modificá-las, assim como os comportamentos relacionados ao uso, de modo a habilitá-lo a desenvolver um estilo de vida sem drogas.
A Terapia Cognitivo-Comportamental tem características muito interessantes para a prática clínica nesse contexto, onde a relação é caracterizada pela parceria entre terapeuta e paciente, conferindo ao paciente responsabilidade sobre seu processo de mudança. Além de ser uma abordagem estruturada e orientada por metas, o que permite manter o foco nas principais necessidades do paciente, como o manejo de sintomas agudos (ansiedade, depressão, estresse, fissura, etc.) e o treino de habilidades essenciais (identificar gatilhos, fissura e controlar emoções negativas, etc.), de modo a engajar o sujeito no processo de tratamento.

A Terapia Cognitivo-Comportamental é usada em abordagem individual ou em grupo?
A TCC apresenta efetividade, tanto na modalidade individual quanto grupal.  A partir da avaliação cuidadosa do paciente, o terapeuta treinado poderá determinar qual atenderá melhor as necessidades, sendo possível ainda a associação de ambas as modalidades.
O caráter colaborativo e empírico do relacionamento terapêutico na Terapia Cognitivo-Comportamental talvez seja o aspecto mais vantajoso na modalidade individual, porque quando o terapeuta valoriza e estabelece uma relação terapêutica colaborativa, o paciente pode ter suas atitudes e preocupações totalmente esclarecidas e valorizadas através de uma abordagem compreensiva na qual paciente e terapeuta funcionam como uma equipe totalmente integrada. 
Na modalidade grupal, há vantagens interessantes relacionadas ao compartilhamento de experiências, treinamento de habilidades de socialização e de solução de problemas, oportunidade de aprendizado de comportamentos mais adaptativos, altruísmo, estímulo do sentimento de esperança, etc. O grupo também pode constituir-se em uma fonte de reforçamento e modelação comportamental poderosa, facilitando o desenvolvimento de novos padrões de funcionamento. Além do mais, a coesão grupal é capaz de promover uma sensação positiva de pertencimento, que auxilia na aceitação e compreensão da realidade a ser mudada. Assim como na melhora do senso de autoeficácia, aspectos que podem tornar essa modalidade superior quando comparada a abordagem individual.

A Terapia Cognitivo-Comportamental é útil quando o paciente está internado?
A internação de pacientes dependentes químicos tem como objetivo principal realizar desintoxicação em ambiente protegido e com suporte médico, de modo a promover a abstinência do uso substâncias psicoativas, favorecendo com isso o engajamento do indivíduo no processo de reabilitação e reinserção psicossocial. A TCC é uma abordagem com característica colaborativa e educativa, proporcionando experiências específicas de aprendizagem que visam ensinar o paciente a:
1) Identificar e monitorar os pensamentos automáticos relacionados ao uso de substâncias;
2) aprender a reconhecer as relações entre as cognições, as emoções e o comportamento;
3) testar a validade dos pensamentos automáticos e das crenças sobre a substância;
4) corrigir pensamentos automáticos e crenças irracionais ou disfuncionais por cognições mais realistas.
O aspecto protegido do ambiente de internação é propício para educar o paciente sobre o modelo cognitivo, levando-o a compreensão do motivo pelo qual se comporta de determinada maneira e entender que pode aprender a comportar-se de outra forma, mais saudável e efetiva.

A Terapia Cognitivo-Comportamental pode ser aplicada em intervenções familiares e de casais com problemas relacionados a dependência química?
Embora seja uma modalidade relativamente nova no âmbito da terapia familiar, nas últimas décadas, essa abordagem terapêutica passou a figurar como destaque nos principais manuais da área. A abordagem cognitivo-comportamental de casais e de família é baseada na premissa de que os membros de uma família são influenciados pelos pensamentos, emoções e comportamentos de cada um de seus componentes.
O foco do terapeuta dessa abordagem é avaliar e intervir nos aspectos cognitivos, afetivos e comportamentais dos padrões problemáticos que muitas vezes são profundos e difíceis de mudar. Em famílias com dependentes químicos, os membros da família precisam de ajuda não só para lidar de forma mais eficaz com o usuário de substância, mas também para lidar com suas angústias e resolver seus próprios problemas. Além disso, o estresse nas relações familiares, nesse contexto, pode exacerbar o consumo de drogas e contribuir para a recaída.
O CRAFT (Community Reinforcement and Family Training), por exemplo, modelo de tratamento cognitivo-comportamental desenvolvido para tratar famílias de dependentes químicos, tem foco na melhoria das relações dentro de casa e no desenvolvimento de autoeficácia dos familiares não dependentes. Os resultados apresentados em estudos apontam benefícios gerais, tanto para familiares quanto para o paciente.

Pacientes que apresentam quadro de comorbidade psiquiátrica associada à dependência química podem se beneficiar da Terapia Cognitivo-Comportamental?
A presença de comorbidade psiquiátrica em portadores de transtornos por uso de substâncias psicoativas é bastante frequente. Em geral, o sujeito que possui uma comorbidade associada tem maior gravidade do quadro de dependência química, maior refratariedade ao tratamento e pior prognóstico.
A Terapia Cognitivo-Comportamental aplicada aos casos graves, como este, valoriza o entendimento de elementos cognitivos-comportamentais, biológicos, interpessoais e socioculturais, que são considerados no plano terapêutico. Devido ao caráter integrativo, a TCC valida o manejo de procedimentos psicoterapêuticos em associação com medicação e outros métodos, além de apresentar aos pacientes uma conceitualização de vulnerabilidade ao estresse (e vulnerabilidade psicológica no geral).  
Vale ressaltar alguns elementos, característicos da abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental, como: valorização da aliança terapêutica, psicoeducação, eliminação de estigma, desenvolvimento de estratégias comportamentais adaptativas, promoção de compromisso com o tratamento (intensificar adesão) e desenvolvimento habilidades de prevenção de recaída, que justificam a indicação de TCC para casos de alta complexidade.

Na sua opinião qual a melhor forma de utilizar a Terapia Cognitivo-Comportamental no tratamento de dependentes químicos?
Uma maneira eficaz do uso da Terapia Cognitivo-Comportamental no tratamento de dependentes químicos é a forma “combinada”, ou seja, considerando a característica integrativa do modelo dessa terapia, nos  diversos contextos de tratamento (consultório, ambulatórios especializados ou internação), a associação da TCC com Entrevista Motivacional, Treinamento de Habilidades Socias, Prevenção à Recaída e Terapia de Casal ou Família oferece maiores chances de se obter sucesso.
As estratégias e técnicas utilizadas pela Terapia Cognitivo-Comportamental visam habilitar o paciente a identificar, testar a realidade e corrigir as distorções cognitivas (erros cognitivos). O paciente também é educado sobre seu problema e sobre a terapia, sendo essa uma fonte de aprendizado importante. Durante o tratamento com TCC, além de aprender sobre as técnicas de identificação e correção de cognições distorcidas, o paciente deve aprender a manter sua motivação para consolidar mudanças na vida (Entrevista Motivacional). Deve aprender também habilidades de enfrentamento de vida (Habilidades Sociais) e, por fim, deve aprender como estabelecer um estilo de vida saudável e prevenir recaídas (Prevenção à Recaída).

O que a motiva a trabalhar este tema?
Há 20 anos, atuo com pacientes portadores de transtornos por uso de substâncias psicoativas e suas famílias. Durante todos os anos da minha prática clínica com essa população, observei o efeito devastador desse transtorno em suas vidas e na vida de seus familiares. O sofrimento intenso e a degradação nas diversas áreas os enfraquecem e muitas vezes os impedem de se reestruturarem. Eu realmente acredito (sempre acreditei) que essas pessoas podem ter vidas que “valham a pena serem vividas” sem a presença de substâncias. Acredito ainda que, como psicóloga, posso contribuir para ajudá-las a atingir esse objetivo.

Como o OBID pode ajudar neste seu trabalho?
Reconheço no OBID uma ferramenta importante para o fornecimento de dados seguros sobre a casuística do uso de substâncias, consequências e tratamentos, e que podem fundamentar as políticas públicas e o monitoramento de práticas terapêuticas em todo o país. O OBID é certamente um recurso informativo valioso, que contribui para a divulgação de conhecimento entre profissionais, estudantes, famílias e pessoas em geral que buscam informações confiáveis a respeito das questões relacionadas à dependência química e seu tratamento.

Claudia Cristina de Oliveira Camargo é graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo (2000), especialista em Dependência Química pela UNIFESP (2003), Terapeuta Cognitivo Comportamental pelo Amban/IPq-FMUSP (2005) e Terapeuta Treinada em Terapia Comportamental Dialética (DBT) pelo Behavioral Tech/The Linehan Institute Training Company (2019). Atualmente, é psicóloga supervisora no Setor de Psicologia e Neuropsicologia do IPq HC FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo) e pesquisadora na área de dependência química e família.