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23/8/2019

Entrevista com o psiquiatra

Alexander Moreira-Almeida   



Qual é a diferença entre religião e espiritualidade?
Há várias possíveis definições, mas uma das mais usadas e que adotamos em nossos estudos é a de que espiritualidade se refere ao sagrado e/ou o transcendente, algo de valor supremo e que está além do nosso mundo material, se relaciona a Deus, deuses, espíritos, ancestrais, anjos, etc. A religião é uma forma institucionalizada de espiritualidade, em que as pessoas compartilham crenças e práticas ligadas à espiritualidade. A pessoa pode ter espiritualidade (por exemplo, acreditar em Deus e orar) sem estar necessariamente ligada a uma religião. No entanto, para a maioria da humanidade, a espiritualidade está ligada a uma religião. Dados de 2015 mostram que 84% da humanidade afirma pertencer a uma religião, e as projeções para 2060 indicam que esse número deve aumentar (referência).

Há estudos sobre o impacto da religião e espiritualidade na saúde? Quais os resultados?
Sim, atualmente há, literalmente, milhares de estudos sobre religiosidade/ espiritualidade (R/E) e saúde. Em linhas gerais, esses estudos mostram que maiores níveis de envolvimento religioso tendem a estar associados a menores níveis de depressão, suicídio, uso/abuso de álcool e outras drogas e menor mortalidade geral. Também tendem a estar associados a melhor qualidade de vida e bem-estar. Há também, naturalmente, certas formas de envolvimento religioso (por exemplo, ênfase em um Deus punitivo ou atitude passiva frente a problemas, delegando toda a solução a Deus) que estão associadas a impactos negativos, como mais depressão, pior qualidade de vida e maior mortalidade.

Qual é o impacto da espiritualidade em relação à dependência química?
Essa é uma das áreas mais estudadas em R/E e saúde e que tem tido resultados mais consistentes. Uma revisão recente (Koenig et al., 2012) identificou 463 estudos que testavam a associação entre R/E e uso/abuso de álcool ou outras drogas. Desses, 395 (85%) encontraram que as pessoas com maiores níveis de envolvimento R/E tinham menos uso/abuso de álcool/drogas. Especialmente entre adolescentes, maiores níveis de R/E (por exemplo, frequência regular a serviços religiosos ou ter tido uma educação religiosa na família) estão entre os principais fatores protetores contra problemas com substâncias lícitas ou ilícitas. Além disso, há um crescente número de estudos sobre o impacto da R/E no tratamento das dependências. O papel preponderante da espiritualidade nos 12 passos do AA e NA tem recebido cada vez mais atenção.

Como está a aceitação dessa constatação no meio científico?
Durante boa parte dos séculos XIX e XX predominou no ambiente acadêmico uma visão bastante negativa da religião e espiritualidade (R/E). Acreditava-se que a R/E era uma forma atrasada ou patológica de funcionamento mental ou social e que tenderia a desaparecer ao longo do século XX. Também havia uma visão de que religião e ciência estariam sempre em oposição. No entanto, nas últimas décadas, um grande número de pesquisas de qualidade tem desmontado todas essas crenças. A R/E não desapareceu, está habitualmente ligada a melhor saúde mental e se reconheceu que a visão de um eterno e necessário conflito entre ciência e religião é um mito disseminado a partir do final do século XIX. Assim, tem havido um crescente interesse acadêmico sobre o tema. As principais universidades do mundo, como Harvard, Oxford e Cambridge, possuem centros de pesquisa sobre ciência e R/E. Foram criadas seções sobre R/E em associações médicas como a Sociedade Brasileira de Cardiologia, Associação Brasileira de Psiquiatria, assim como as Associações Mundial e Latino-Americana de Psiquiatria. A Associação Mundial de Psiquiatria publicou em 2016 um “Position Statement”, uma recomendação oficial aos 300 mil psiquiatras de todo o mundo  sobre a importância da psiquiatria considerar a R/E no treinamento, pesquisa e prática clínica. A versão em português está disponível aqui.

Quais as justificativas para se abordar a R/E na pesquisa e prática clínica?
Se baseiam nos seguintes argumentos: 1) maior parte da humanidade e de nossos pacientes têm uma R/E; 2) A R/E impacta a saúde geralmente de modo positivo, mas também pode ser de modo negativo; 3) Abordar a espiritualidade dos pacientes pode ter impactos na prevenção, diagnóstico, tratamento e prognóstico; 4) A maior parte dos pacientes gostaria que sua R/E fosse abordada no encontro clínico; 5) É dever dos profissionais e gestores de saúde conhecerem e considerarem com todos os fatores que afetam a saúde dos pacientes e da população como um todo; 6) Assim, é um dever ético considerar a R/E na clínica, pesquisa e políticas de saúde. Ou seja, a R/E deve ser abordada de modo direto, respeitoso e sem tabus, do mesmo modo que outros fatores que impactam a saúde, como a sexualidade, condições socioeconômicas e familiares.

Quais estudos científicos sobre R/E e uso de substâncias recomendaria?
Como ilustração, citarei dois estudos nacionais dos quais participamos. Um que foi o mestrado na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) do colega Alexandre Rezende, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em que investigamos 531 dependentes de crack internados. Aqueles que tiveram maior envolvimento em atividades religiosas na adolescência (especialmente dos 15 aos 17 anos), em comparação com os que não tinham, tiveram metade da chance de terem indicadores de maior gravidade, como início do consumo antes dos 18 anos, uso de mais de 10 pedras/dia e fissura grave. Eles também tiveram menor envolvimento com criminalidade. Em outro estudo, em parceria com a USP, investigamos 12 mil estudantes universitários de todo o Brasil. Os estudantes que frequentavam regularmente um grupo religioso tinham em torno de metade da chance dos que não frequentavam de terem utilizado álcool, tabaco ou maconha no último mês. Por fim, para se ter uma outra evidência do grande impacto na saúde pública, um estudo recente com quase 40 mil norte-americanos mostrou que entre as pessoas que se recuperaram de problemas com álcool e outras drogas nos Estados Unidos (EUA), o recurso mais utilizado (45%) foram os grupos de mútua ajuda, que, como sabemos, têm a espiritualidade como um componente central.

Como a R/E pode ser incluída na prática clínica?
Incialmente, é importante que a abordagem seja “centrada no paciente”, abordar com respeito, profissionalismo e genuíno interesse o que for relevante para a vida do paciente. Não é papel do clínico fazer proselitismo de visões religiosas ou antirreligiosas. Dito isso, alguns modos de se incluir na clínica são: 1) Coletar uma história espiritual: se o paciente tem alguma R/E, o quanto ela influi (positiva ou negativamente) em como o paciente lida com seu problema atual, se ele tem práticas R/E (orações, leituras, meditação, ida a templos, etc); 2) Identificar que recursos R/E do paciente podem ser úteis em seu tratamento, por exemplo, o apoio de sua comunidade religiosa, crenças religiosas de perdão e esperança, práticas como oração, meditação ou leitura R/E, reinserção social através de participação em cultos ou trabalhos voluntários, etc.

Esse tema tem sido estudado na graduação de profissionais da saúde?
Infelizmente, essa é uma das maiores lacunas. Pesquisas nacionais já mostram que a maioria dos psiquiatras e psicólogos reconhecem a importância da R/E na clínica, mas a maioria deles refere dificuldades em abordar o tema e uma das maiores barreiras relatadas é a fata de treinamento. Tem havido iniciativas de desenvolvimento e implantação de currículos em R/E nos cursos de graduação e pós-graduação em saúde. Por exemplo, estou orientando na UFJF, em parceria com o prof. John Peteet, da Universidade de Harvard, o doutorado do colega Fabrício Oliveira, no qual estamos desenvolvendo e testando um módulo em R/E para residências de psiquiatria. Vários congressos, como o Congresso Brasileiro de Psiquiatria, têm regularmente cursos e simpósios que buscam também preencher essa lacuna de formação. Também nessa direção, há cinco anos nosso grupo de pesquisas criou a TV NUPES, um canal no YouTube sobre ciência, saúde e espiritualidade, onde há 250 vídeos de acesso gratuito com muitos dos principais especialistas na área do Brasil e do mundo.

O que o motiva a trabalhar com este tema?
A busca de uma abordagem que realmente leve em consideração todos os aspectos do ser humano para que possamos ser muito mais eficientes em não apenas combater a doença, o sofrimento e a incapacitação, mas que também promova o bem-estar e o florescimento humano de todos os potenciais de cada indivíduo. Assim, ao defender a importância de se valorizar a R/E do paciente e mesmo da população como um todo, não estamos de forma alguma negligenciando os aspectos biológicos, sociais ou psicológicos. Não se trata de escolher uma dessas dimensões do ser humano, mas de uma verdadeira abordagem bio-psico-socio-espiritual, que honre todos os pactos do ser humano.

O que representa o Obid para seu trabalho?
Acho que o Obid tem um papel essencial em disseminar informação baseada em pesquisas de qualidade para que possa embasar a sociedade e o governo na busca de soluções eficazes, baseadas em evidências e que tenham sensibilidade cultural para com os valores da população brasileira.

Alexander Moreira-Almeida é professor associado de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da UFJF (Nupes) e coordenador das seções de Espiritualidade e Psiquiatria da Associação Mundial de Psiquiatria e da Associação Brasileira de Psiquiatria.