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No Capão Redondo, o primeiro Ponto de Cultura Alimentar do país

publicado  em 10/12/2015 17h51
Revista Ideias na Mesa mostra boas práticas da Associação Capão Cidadão, de São Paulo

Dona Lourdes Dias sentenciou: pé de moleque, só faço com pilão. O pedido foi uma ordem para Paulo Magrão, vice-presidente da Associação Capão Cidadão, que correu toda a cidade de São Paulo, atrás do apetrecho culinário. “Foi difícil encontrar o pilão, porque a madeira usada para fabricá-lo já está em extinção”, explica Paulo. Feliz da vida, dona Lourdes ensinou para mães da comunidade a receita que aprendeu de menina. O novo projeto do primeiro Ponto de Cultura Alimentar do país, criado pela associação, vem permitindo a outras mulheres do Capão Redondo transmitirem conhecimentos herdados das cozinhas de suas mães e avós.

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As receitas vêm sendo ensinadas em aulas de culinária semanais que resgatam modos tradicionais de preparar alimentos. A ideia inicial era melhorar a merenda escolar das 150 crianças atendidas pela Associação no contraturno das aulas regulares. Algumas estavam magras e apresentavam quadro de desnutrição, diz Ioni Dias, presidenta da entidade. “Mas a gente viu que a alimentação tinha de ser boa também em casa e que poderíamos ajudar a resgatar saberes culinários que as mães estavam perdendo”, explica Paulo Magrão. Algumas instrutoras são da própria comunidade, escolhidas pelos seus conhecimentos tradicionais da cozinha. “Eu vejo como ela chegou a esse alimento, fazemos uma pesquisa sobre os pratos e só depois fazemos a contratação”, afirma. Isso porque, além de ensinar a receita, as mulheres recebem também informações sobre a história e a origem dos pratos. As aulas começaram no início do ano, com um curso de fabricação de pães. Com as receitas, aprenderam também a história do trigo e da panificação. Depois, vieram a história do feijão tropeiro, dos pratos afro-brasileiros e os naturais. As receitas ficam registradas em livro produzido pelo próprio Ponto de Cultura, e também são postadas na página das mídias sociais. “Nós começamos a trabalhar a questão de reunir as mães ao redor da mesa e trazer para elas esse recurso do cozinhar, conhecer os alimentos. Vimos que algumas delas já não sabiam cortar um frango”, diz Magrão.

Meninos e meninas na cozinha - De segunda a quinta, enquanto as mães trocam experiências na cozinha, os meninos fazem aulas de reforço escolar e atividades como balé, caratê e capoeira. Mas, na sexta, a meninada toma conta das panelas. A matemática, por exemplo, é ensinada com a ajuda das receitas como a de pão, ensinada por Cidinha Rocha. “Eu percebo que, ao ver o preparo dos alimentos, eles também têm mais prazer em comer”, diz.

A associação vive de doações, algumas na forma de frutas e verduras de sacolões. Todo esse material é selecionado e usado nos cursos para saborosas receitas que são servidas no lanche da garotada. O aprendizado das mães já rendeu uma receita própria da cozinha do Capão Cidadão, um conserva especial de pepino, que começa a ser comercializada. Outra maneira de garantir a manutenção e o crescimento do projeto são os almoços. “Ao ver o preparo dos alimentos eles têm mais prazer em comer” comunitários, como o de comida vegana, que não usa derivados de animais. Segundo Magrão, o maior legado do projeto começa a ser visto na mudança de atitude em casa. “No outro dia uma das crianças me disse que está parando de tomar refrigerante. Para mim foi uma surpresa! Ela me disse que pede ao pai para não comprar. O que a gente percebe é que as famílias já não têm mais tempo de se reunir à mesa. Aqui também estamos tentando resgatar esse hábito”, afirma.