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A importância do começo

Você sabia que aquela brincadeira de esconde-esconde com um paninho que todo bebê gosta, além de render boas risadas, causa uma verdadeira revolução na cabeça da criança, estimulando milhares de conexões entre os neurônios? E que, mesmo ainda na barriga da mãe, a criança já começa a aprender?

Estudos científicos de diversas áreas, como neurociência, psicologia do desenvolvimento e sobre os impactos de políticas públicas voltadas para a infância, têm apontado que o período de maiores possibilidades para a formação das competências humanas ocorre entre a gestação e o sexto ano de idade.

E mais: o que o bebê aprende no início da vida tem impactos profundos no futuro. É nessa fase, chamada primeira infância, que o cérebro mais se desenvolve em termos estruturais. São os anos mais ricos para o aprendizado.

A boa notícia é que é possível aproveitar essa janela de oportunidade, com potencial de impulsionar o desenvolvimento da criança e gerar impactos no destino dela, com pequenas mudanças de atitude. A primeira pode parecer singela, mas talvez seja uma das mais importantes: o olhar. Estabelecer o vínculo por meio da troca de olhares entre a mãe e a criança durante a amamentação, por exemplo, transmite segurança e sensação de amparo.

Estímulo e acompanhamento na primeira infância podem quebrar ciclos de pobreza e vulnerabilidade

A segurança emocional que o olhar carinhoso transmite do cuidador para o bebê proporcionará a formação de vínculos mais fortes e seguros. Um conjunto de ações de atenção às necessidades do bebê e da criança pequena transforma o cuidador em uma base segura para a criança explorar o mundo e aprender com maior rapidez.

Seja em famílias que podem proporcionar um ambiente estimulante, seja em famílias mais pobres e com maiores dificuldades para conseguir isso, a atenção de quem cuida da criança para com ela fará muita diferença.

Nas reportagens a seguir, apresentamos as fases de desenvolvimento da criança, dicas e técnicas para colocar em prática aí na sua casa, além das novidades da ciência sobre este rico período da vida, que vai da gestação aos 6 anos de idade.

Também mostraremos o que está sendo feito no Brasil e no mundo para impulsionar o desenvolvimento social a partir dos cuidados desde o começo da vida.

São ações de governo norteadas pelo que os estudos científicos têm demonstrado como um divisor de águas nas políticas de educação, desenvolvimento social e saúde. O potencial é de uma verdadeira revolução que promete transformar a sociedade.


Ação e reação

A cena é comum, crianças entretidas pela televisão ou vídeos na internet enquanto os pais ganham um tempinho para os afazeres domésticos, por exemplo. O problema é o excesso. Entreter a criança colocando-a em frente a uma tela não proporciona interação. A imagem não responde à criança.

O desenvolvimento do cérebro exige um estímulo responsivo, ou seja, que envolva resposta. Um sorriso, por exemplo, não terá outro sorriso aprovando a atitude da criança. Por isso, a chave para o sucesso está amparada em duas palavras: ação e reação. 

Segundo a psicóloga e secretária Nacional de Promoção do Desenvolvimento Humano do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), Ely Harasawa, nesse caso, a criança não percebe que a própria reação de prazer ou alegria ao ver o vídeo causou algum efeito. Então, chega um momento em que ela vai parar.

“É preciso haver essa percepção. Quando o bebê sorri, ele precisa ver o resultado de sua atitude. Quanto maior a variedade de estímulos e reações experimentados, mais seguras serão as respostas da criança”, explica.

Está comprovado que amar, brincar e cuidar são os principais fundamentos para o desenvolvimento das crianças, principalmente porque o vínculo é sinônimo de segurança. “É esse laço que permite à criança se soltar para dar passos mais longos, aprender mais e enfrentar o mundo. É preciso reciprocidade. Se a criança não achar que existe um ponto seguro para ela, ela não vai se soltar”, completa a psicóloga.

Dar atenção, conversar e brincar têm papel transformador na vida das crianças. Tudo é baseado nas relações estabelecidas. E, para isso, é preciso tempo.


A hora da criança

A chegada de um novo integrante na família traz uma série de mudanças e requer dezenas (talvez centenas) de detalhes para que tal mudança transcorra da maneira mais adequada. Esse é, pelo menos, o plano de muitos pais de primeira viagem. Mas nem sempre as coisas ocorrem como o esperado. Em um mar de novidades, dificuldades e alegrias ocorrem rápido. E o tempo todo.

Mesmo com poucas horas de vida, a criança já percebe os estímulos e responde por meio de gestos. Um dos melhores momentos para essa troca é durante a amamentação, pois o recém-nascido consegue ver o rosto da mãe e ouvir sua voz. Por isso, a atenção e os cuidados com ele devem ser prioridades para a família.

A boa relação emocional entre pais e filhos no desenvolvimento na primeira infância – até os 3 anos – tem o maior impacto. Ao confiar no adulto, a criança aprende a regular suas emoções, explorar o mundo com confiança e se comunicar. Crianças apoiadas têm mais chances de serem adultos positivos e seguros.


De acordo com o médico neurocientista e diretor do Instituto do Cérebro do Rio Grande de Sul, Jaderson Costa da Costa, o foco na fase inicial da vida é essencial para desenvolver a inteligência das crianças. Cada estímulo tem impacto na formação das conexões entre os neurônios e na formação do cérebro, que, aos 6 anos, conta com o dobro de conexões que o cérebro de um adulto. “Esse é o melhor momento, quando o cérebro responde prontamente.

O órgão está pronto para ser estimulado, desenvolver-se”, diz o especialista. E quanto melhor estimulado, mais habilidades e competências terá o futuro adulto. Para começar agora não é preciso muito tempo ou investimentos em atividades, brinquedos caros ou uma cuidadora especializada. O interesse dos pais e uma pausa na rotina do dia a dia já são um grande começo. A qualidade da relação no tempo disponível é essencial.


Com a palavra, a ciência

Em meados do século XX, o interesse pelo desenvolvimento infantil começou a crescer. Pesquisas para demonstrar quais impactos os fatos ocorridos na infância tinham na vida adulta surgiram em grande número. Diversas teorias foram publicadas. Entre os pesquisadores que exploraram essa temática, estava o suíço Jean Piaget, que tratou sobre os estágios da vida e o desenvolvimento cognitivo e de adaptação das crianças com o ambiente. Mas se antes os efeitos das experiências nos primeiros anos de vida eram discutidos do ponto de vista comportamental e de formação da personalidade, hoje a

tecnologia e a ciência já conseguiram  comprovar que os estímulos do ambiente e das interações têm impactos determinantes na formação do cérebro.  As conexões entre os neurônios se estabelecem em menor ou maior velocidade a partir dessas interações. Sabe-se ainda que além de uma maior capacidade cognitiva, crianças bem estimuladas nos primeiros anos de vida tendem a ter um desempenho escolar melhor, além de chances menores de envolvimento com o crime e o uso de drogas.

Um dos precursores nesse tema é o médico epidemiologista brasileiro e cientista Cesar Victora. Os estudos sobre o desenvolvimento humano lhe renderam o Prêmio Gairdner de Saúde Global em 2017 – a mais importante distinção científica do Canadá e uma das mais prestigiadas do mundo. Ele é responsável por coordenar um consórcio internacional de cientistas que acompanha o desenvolvimento de 11 mil pessoas desde o útero até a vida adulta. A análise dos dados demonstra – entre outros aspectos – a importância dos primeiros mil dias de vida para a articulação de cada competência do ser humano. “A criança que tem condições adequadas de crescimento,

de nutrição, de cuidado e de estimulação até os 2 anos de vida será um adulto mais produtivo e mais inteligente. Além disso, muitas doenças crônicas, como a hipertensão e o diabetes, são determinadas, em parte, pelo desenvolvimento dos órgãos da criança nesse período.” Resultados de estudos, como o conduzido por Victora, demonstraram a necessidade de criação de programas focados nessa fase da vida. Em diversas partes do mundo, programas de atenção e acompanhamento na primeira infância são realizados com foco na garantia do ambiente, estímulos e condições mais adequados ao desenvolvimento humano.


SAIBA MAIS


Cesar Victora é professor Emérito da Universidade Federal de Pelotas. Ocupa posições honorárias nas universidades de Harvard, Oxford, Johns Hopkins e Londres. Os estudos desenvolvidos junto com sua equipe definiram o rumo de políticas e campanhas de saúde pública adotadas internacionalmente. Entre os resultados encontrados, estão:


- Primeiro estudo a detectar a relação direta entre amamentação exclusiva e prevenção da mortalidade infantil;

- Estudo que deu origem às curvas de crescimento infantil para crianças de 0 a 5 anos utilizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e adotadas em mais de 140 países;

- Primeiro estudo a fornecer evidências da associação entre amamentação prolongada na infância e níveis de QI, escolaridade e renda aos 30 anos.


Impacto econômico e social 

Os estudos sobre o impacto de programas sociais voltados à primeira infância renderam ao economista americano James Heckman o Prêmio Nobel de Economia. Heckman comprovou que políticas públicas focadas nesse período do desenvolvimento humano têm potencial de promover verdadeiras revoluções sociais. 

A pesquisa envolveu economistas, psicólogos, sociólogos, estatísticos e neurocientistas. Uma das descobertas do grupo apontou que cada dólar gasto pelo governo com uma criança na primeira infância trará um retorno de 7 dólares até ela completar 50 anos. Segundo o pesquisador, é o melhor e mais eficiente investimento possível no desenvolvimento humano.




 
"Investir em programas de aprendizagem precoce pode impulsionar resultados educacionais, econômicos e de saúde. Nossas evidências mostram o potencial das intervenções para prevenir doenças, por exemplo."





INVESTIMENTOS PÚBLICOS NA ÁREA RESULTAM EM MELHORIAS COMO:



- Diminui riscos de problemas de pressão sanguínea;
- Reduz hipertensão em adultos;
- Menor consumo de drogas;
- Mais anos de educação;
- Maiores taxas de graduação;
- Mais empregos para adultos;
- Maiores rendimentos parentais;
- Menor proporção de encarceramento.

Fonte: heckmanequation.org


QUAL O RETORNO?


Outros estudos também comprovam influências diversas na vida dos adultos


O grau de aprendizagem de uma criança chega a ser três vezes maior quando acompanhada por algum programa de assistência à primeira infância. Crianças que tiveram esse acompanhamento apresentaram menos da metade dos problemas por envolvimento com drogas do que as que não contaram com esse apoio. Crianças bem cuidadas na primeira infância tendem a ter salários, em média, 36% maiores aos 40 anos de idade.