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Acolhimento: comunidade terapêutica trata dependência química de mulheres

EM GOIÁS

Unidade em Goiânia capacita internadas para retornarem à sociedade, ao trabalhar sua saúde mental, emocional, física e espiritual
publicado  em 09/05/2019 11h10
Fotos: Walterson de Freitas

Brasília – Respeitar horários fixos para ir dormir, acordar e fazer refeições, compartilhar quarto, cumprir uma escala de tarefas domésticas e participar de atividades pré-determinadas, conforme o dia da semana. Estabelecer uma rotina com limites é um dos passos no tratamento contra a dependência química. Com um programa de sete meses de acolhimento, a Comunidade Terapêutica Missão Resgate da Paz, em Goiânia (GO), trabalha a saúde mental, emocional, física e espiritual de mulheres que enfrentam problemas relacionados ao uso nocivo de álcool e outras drogas.

A voz embargada narra um passado recente carregado de traumas. Das ruas de Aparecida de Goiânia (GO), município vizinho à capital, até a casa que dispõe de gramado, piscina e salas amplas para atividades, foram seis meses até a internação de Aline Silva, 28 anos, que mora com outras sete pacientes. Nos anos sem teto, ela deu à luz quatro filhos, no entanto, sua condição a impediu de exercer a maternidade. Na quinta gestação, quando Vitória Emanuela nasceu, buscou auxílio no Centro-Pop – unidade da assistência social que oferece apoio a pessoas em situação de rua. A partir de então, sua realidade ganhou novos contornos. 

Por meio da Rede do Sistema Único de Assistência Social (Suas), Aline foi encaminhada a uma vaga na Missão Resgate da Paz. Com respaldo do Conselho Tutelar, a caçula, hoje de 11 meses, está com ela enquanto trata a doença. “Aqui, eu estou tendo a minha experiência como genitora e recuperei o vínculo com a minha mãe, que havia perdido por causa do vício. Aprendo muitas coisas com as oficinas, sem precisar da droga.”

Aceitar que a cura para a dependência química é um processo contínuo de abstinência é uma batalha diária. Para Lilia Santos, de 27 anos, os dois meses na unidade estão sendo reveladores. “Estou me conhecendo e descobrindo quem eu sou graças às oficinas e à busca pela minha espiritualidade”, conta. Ela alega ainda que a convivência com outras mulheres que também lutam para superar o problema é um estímulo, além da roda de conversas com quem venceu o tratamento e já conquistou um lugar na sociedade. “O relacionamento com todas ajuda, com a equipe e as meninas. Cada uma vem de uma história e cultura diferentes, você aprende a conviver aqui.”



Viver o presente –
Daniela França compartilha com outras pacientes a sua trajetória de superação. Após 12 anos sem entorpecentes, sofreu uma recaída que derrubou conquistas do período em que estava sóbria – entre elas, a administração de sua fábrica de semijoias e a confiança da família. “Eu percebi que perdi o controle quando eu vi que não podia cuidar da Valentina, minha neta. A partir daí, resolvi me tratar”, lembra, emocionada. Na Missão Resgate da Paz, começou novamente. “A comunidade terapêutica foi importante porque eu precisava da abstinência”, comenta. Laís França, de 27 anos - primogênita de Daniela e mãe de Valentina -, não mede palavras quanto ao impacto da comunidade terapêutica na vida da família: “A minha mãe nem estaria viva, eu tenho certeza disso”.

Durante o tratamento, Laís também recebeu apoio da equipe, que atua no fortalecimento de vínculos familiares.  Assim, entendeu a influência de seu suporte na recuperação de Daniela. “A família é essencial nesse processo, é 50% da cura. Desde o tratamento na comunidade, a minha mãe é outra. Ela realmente mudou, é uma pessoa mais equilibrada hoje”, relata, sorridente.

Há três anos, Daniela recebeu alta. De lá para cá, cobriu os braços com tatuagens que retratam sua fé em Deus, voltou a usar maquiagem, conseguiu retomar a liderança no trabalho de criação e fabricação de semijoias e, nos próximos dias, avançará mais um passo: voltará a morar sozinha. “Vivo uma vida muito mais feliz hoje, muito mais em paz. Tem dificuldades? Sim. Mas você aprende a lidar com elas. Para eu me manter curada, tenho que me manter no caminho”, conclui.

Trabalho integrado – A psicóloga da instituição, Halyne Guimarães, trabalha com as internas formas de prevenir recaídas. De acordo com ela, a recuperação começa no momento em que a usuária pede ajuda. “Quando elas chegam aqui, nós passamos a trabalhar o pós. Elas precisam conhecer os riscos e os mecanismos de proteção para que, lá fora, seja cada vez menos o índice de desistência da abstinência”, esclarece.

O tratamento na comunidade terapêutica feminina Missão Resgate da Paz é gratuito. Consiste no acompanhamento individual e na oferta de oficinas de capacitação e formação, como panificação, confeitaria e arte-terapia, além de palestras multitemáticas, atividade física, alfabetização e reforço escolar, e reuniões com familiares. “Nós também as levamos em passeios fora da CT para perceberem que há prazeres legítimos que são possíveis”, pontua a assistente social e coordenadora da unidade, Sherydan Oliveira.

Fortalecimento – Em março, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, assinou contrato de ampliação do número de vagas gratuitas em comunidades terapêuticas para tratamento de dependentes químicos, além de três portarias que instituem o cadastramento, a fiscalização e a certificação de 216 entidades e, assim, garantir um tratamento padronizado e de qualidade às pessoas com problemas associados ao uso de álcool e outras drogas. Ao todo, o investimento do governo federal no tratamento de dependência química passa a ser R$ 153,7 milhões por ano para 10.883 vagas em 496 instituições – das quais cerca de mil são destinadas a mulheres – adultas, adolescentes e mães nutrizes (com filhos em idade de receber amamentação).

O secretário de Cuidados e Prevenção às Drogas do Ministério da Cidadania, Quirino Cordeiro, ressalta a necessidade da ampliação do número de vagas em comunidades terapêuticas femininas, uma vez que estudos epidemiológicos vêm demonstrando aumento de dependência química entre mulheres, principalmente, as jovens. “Esse fato preocupa o governo federal e faz com que precisemos organizar políticas públicas para combater o problema. Estamos trabalhando junto às comunidades terapêuticas para podermos, em um segundo edital de financiamento de vagas que pretendemos lançar ainda neste ano, aumentar o contingente de vagas ofertadas para o tratamento de mulheres, em variadas situações”, antecipa.

Política pública - A Política Nacional Sobre Drogas, articulada pelo Ministério da Cidadania, reconhece as Comunidades Terapêuticas como forma de cuidado, acolhimento e tratamento de dependência química. Estimula ainda e apoia o aprimoramento, o desenvolvimento e a estruturação física e funcional dessas instituições e outras entidades de tratamento, acolhimento, recuperação, apoio e mútua ajuda, reinserção social, prevenção e capacitação continuada.

Comunidade Terapêutica feminina em Goiânia (8/5/2019)

*Por Renata Garcia

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