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Experiências de acolhimento mudam a vida de família de Campinas (SP)

FAMÍLIA ACOLHEDORA

Iniciativa proporciona um lar temporário para crianças que foram afastadas do convívio familiar por medidas de proteção; serviço está presente em 522 municípios brasileiros
publicado  em 02/06/2017 17h53
Foto: Rafael Zart/MDSA

Brasília – Até 2010, o empresário José Carlos da Silva tinha uma rotina familiar considerada normal pela maioria das pessoas. Dono de uma empresa que atua na área de telecomunicações, é casado, tem um filho adulto, do primeiro casamento, e um menino de 9 anos, fruto da segunda união. Vive com a família em uma casa em Campinas (SP) e cultiva um jardim repleto de orquídeas. Há sete anos, porém, seu dia a dia sofreu uma reviravolta motivada pelo amor e pelo desejo de ajudar crianças que não possuem um lar.

Por sugestão da cunhada, que fez um trabalho de faculdade em um abrigo municipal, José Carlos visitou um serviço de acolhimento, o Sapeca (Serviço de Acolhimento e Proteção Especial à Criança e ao Adolescente), que dá um lar temporário a crianças afastadas do convívio familiar por medidas de proteção. Não demorou até ele e a esposa, Aparecida, se cadastrarem. Desde então, a família recebeu em casa sete crianças (cinco meninas e dois meninos). “É algo apaixonante. Ter uma criança em casa e poder ajudá-la na hora em que ela mais precisa é muito gratificante”, avalia.

A iniciativa faz parte de um conjunto de políticas de Assistência Social, administradas pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). De acordo com o censo do Sistema Único de Assistência Social (Suas) de 2016, o serviço de acolhimento está presente em 522 municípios brasileiros. Há 2.341 famílias cadastradas para acolher 1.837 crianças e adolescentes.

O governo federal quer zerar até 2018 o número de crianças entre 0 e 6 anos em abrigos. A meta é atender mais de 9 mil crianças, que hoje vivem nessas unidades, no Família Acolhedora. Para fazer parte do projeto, a família passa por avaliação e treinamento. Caso se adapte às exigências, recebe crianças em casa por um período que varia de seis meses a dois anos, contando com uma ajuda de custo de um salário mínimo por mês.

Desafio – O início exige uma dose extra de adaptação, admite José Carlos. A primeira criança acolhida foi uma menina de 3 anos. Vinda de um núcleo familiar complexo, a garota tinha a mesma idade do filho do casal e as crianças entraram em conflito. Com o tempo, a família optou por receber apenas bebês do sexo feminino.

O maior desafio, no entanto, é manter os sentimentos sob controle. Para o empresário, o segredo é encontrar equilíbrio entre o amor que nasce e a certeza de que a convivência terá fim. “Quando recebemos a criança, eu não coloco limite no apego, procuro dar a ela o meu melhor. Quando acordo de manhã, mentalizo: vou fazer desse dia o melhor dia possível para ela. Ao mesmo tempo, penso que aquele dia pode ser o último em que estaremos juntos”, afirma.

Algumas experiências deixam lembranças profundas. É o caso de uma menina que chegou à casa da família aos 5 meses de idade, soropositiva e debilitada por uma internação de quatro meses em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Filha de uma mãe soropositiva e usuária de crack, a criança nasceu com o estômago projetado para fora do abdômen. Enfrentou duas cirurgias e uma batalha pela própria vida. Logo que foi acolhida, não se movimentava ou expressava qualquer emoção.

Com dedicação integral e cuidados redobrados, as adversidades foram sendo superadas. “Um dia, brincando com meu filho na cama, ela sorriu. Depois deu uma risada, e, em seguida, caiu na gargalhada. A partir de então, acordava sorrindo”, relata José Carlos. Durante a temporada de acolhimento, que durou um ano e meio, o exame de HIV da criança foi negativado. Pouco tempo depois, ela foi adotada por outra família.

Adaptação – Os dilemas e dificuldades de cada núcleo familiar que acolhe crianças são compartilhados em reuniões. No caso de José Carlos, o serviço ao qual ele se cadastrou, o Sapeca, promove encontros quinzenais. Hoje, há 25 famílias acolhedoras inscritas na unidade, que é uma das duas do tipo em Campinas. “Precisaríamos de, pelo menos, mais 50 famílias, para atender a toda a demanda da região”, destaca.

Por passar mais tempo com as crianças, a mulher de José Carlos era quem mais sofria com a ausência delas. Quando os meninos e meninas retornavam à família de origem ou eram adotados, ela precisava de um tempo para viver o luto e se preparar para o próximo acolhimento. Recentemente, porém, ela se candidatou para receber a próxima criança no dia em que foi deixar a que estava sob sua guarda no serviço de acolhimento.

O filho do casal que, inicialmente, também estranhou os novos hábitos familiares, já se adaptou por completo. Ao saber que uma criança acolhida seria adotada, disse à mãe: “Ela é muito linda. Quando chega a próxima?”. Até mesmo a mãe de José Carlos desconfiou que o filho havia perdido o juízo. Hoje, faz questão de conhecer todos os meninos e meninas que passam pela família. A rede de afeto também extrapolou o ambiente doméstico. Quando os vizinhos souberam do gesto de José Carlos e Aparecida, se revezaram em visitas e presentes. Cada criança que chega é motivo para um novo chá de fraldas.

A última criança que ficou uma temporada na casa, uma bebê de 2 meses e meio chamada Laura, foi entregue para os pais adotivos há menos de uma semana. O quarto, especialmente decorado com decalques de princesas na parede, está pronto para a próxima acolhida. “Já fui ao serviço e coloquei nossa família novamente à disposição”, revela José Carlos. De criança em criança, ele cria sua teia de afetos e exercita a máxima que inventou para justificar a saudade: “A essência do amor é a liberdade”, ensina.

Quais os pré-requisitos para se inscrever no Programa Família Acolhedora?
Para o cadastro de famílias ou indivíduos no Programa Família Acolhedora são verificados os seguintes critérios:
1) Disponibilidade afetiva;
2) Ter entre 25 e 55 anos
3) Estar em boas condições de saúde física e mental
4) Não possuir antecedentes criminais
5) Possuir situação financeira estável
6) Possuir convivência familiar estável e livre de pessoas dependentes de substâncias entorpecentes.

Quais os documentos necessários para se inscrever no Programa Família Acolhedora?
A documentação mínima exigida é composta por documentos pessoais (RG, CPF), comprovante de residência, comprovante de rendimentos, certidão negativa de antecedentes criminais e atestado de saúde física e mental.

Saiba mais:
Governo federal quer zerar número de crianças até 6 anos em abrigos

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