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“Hoje sou uma pessoa realizada!”

Dia Internacional das Mulheres

No Dia Internacional das Mulheres, a agricultora familiar Irene de Jesus conta sua luta para conviver com a seca no Semiárido e como está mudando sua vida com os programas sociais
publicado  em 08/03/2016 09h26
Exibir carrossel de imagens Foto: Ubirajara Machado/MDS

Brasília – A semente do mandacaru, espalhada pelas aves ou pelo vento, nasce no solo seco do Semiárido brasileiro. O cacto cresce sozinho, sem qualquer tratamento, e sobrevive a longos períodos de estiagem, quando serve de alimento para bovinos, ovinos e caprinos. O mandacaru é símbolo da resistência em um cenário árido. Assim como são as sertanejas, que vivem uma rotina com sol constante e acesso à água cheio de obstáculos. 

Irene Santos de Jesus, de 41 anos, é casada e mãe de dois filhos. A agricultora familiar de Serra Preta (BA), região em que os mandacarus estão por toda parte, é um exemplo da resistência, da persistência e da força da mulher. A baiana de voz firme e olhar seguro termina as frases com um sorriso aberto. Alegre, falante, está sempre disposta a contar suas conquistas depois de uma vida repleta de obstáculos. “Hoje sou uma pessoa realizada!”, assegura. 

Ao enfrentar as dificuldades comuns a todos na região, Irene começou a buscar informações, formas de se associar na comunidade e de conseguir melhorias para a vida da família. Há 10 anos, formalizou-se como agricultora familiar, ao obter a Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP), que lhe deu acesso a crédito. 

Participativa junto a organizações e sindicatos locais de agricultores, em 2007 ela participou da criação da Associação Comunitária Cazuzão (comunidade de Serra Preta onde vive), da qual foi eleita presidente duas vezes e onde é tesoureira atualmente. Lá, ela passou a lutar pelas cisternas para a comunidade. Formada por 300 agricultores familiares, com apoio do governo do estado eles conseguiram estrutura para 20 barracas, para montarem na feira livre da cidade e venderem a produção. 

Pensar no coletivo para construir uma vida melhor é o lema dessa baiana que conhece a realidade onde vive. “A gente é parceiro aqui. A gente dá frango, ovos. Não plantamos só para ter dinheiro. Temos que ter parceria até na alimentação. Não vou estar aqui comendo e meu vizinho passando fome, né? De jeito nenhum! E eles compram de nós: se lá na rua vendo um mólho [maço] de coentro a R$ 1, vendo para eles a 50 centavos.” 

Água é vida – Ao longo de 30 anos, a escassez de água fez parte da vida da agricultora. “De primeiro, a gente ia pegar água na Serra. Saía daqui com pote e lata na cabeça e ia pegar no minador. Daqui para lá, dá uns 17 quilômetros de pé”, conta David de Jesus, casado com Irene há 20 anos e com quem tem os filhos Anderson, 20 anos, e Keila, 17 anos. 

O acesso à água para o consumo diário da família veio em 2005, com a cisterna de consumo recebida do Programa Cisternas. “Depois que a cisterna chegou, a gente não passa dificuldade de água”, conta Irene. O que para muitas pessoas é um ato comum de abrir a torneira da pia da cozinha e lavar a louça, para a família da baiana é uma realidade muito comemorada, motivo de orgulho e alegria. Antes, na pia havia pequenas bacias no lugar da torneira. As bacias também serviam para o banho, hoje feito com chuveiro. 

Em 2013, eles tiveram mais uma oportunidade, quando receberam a cisterna de enxurrada, que acumula água da chuva – 52 mil litros – para ser usada para a produção agrícola no período da estiagem. “Tenho água à vontade. No período de seis meses a um ano, não vou me preocupar com água”, conta Irene, passando as mãos no rosto e demonstrando grande alívio. “A gente sem água não é nada. Água é vida. Eu costumo dizer que a gente não se acostuma com a seca; procura conviver com ela. A gente aqui faz isso muito bem.” 

David foi qualificado como pedreiro e trabalhou na construção de sua própria unidade. O dinheiro do trabalho, mais o que recebem com a venda de hortaliças, foi usado na ampliação da casa da família – antes com cinco cômodos (dois quartos, uma sala, uma cozinha e um banheiro), ganhou quatro no ano passado (duas salas, a varanda e um quarto). 

Nos três primeiros meses do ano, a família planta hortaliças. Em abril, pretendem plantar milho e feijão com as sementes crioulas que são armazenadas e cuidadas desde seus avós. Desde 2015, vendem coentro para o supermercado da cidade – de 50 a 100 maços por semana. No ano passado, entregou também alface, cebolinha, quiabo, feijão de corda, melancia, abóbora, pepino e pimentão. E junto com outros agricultores da Associação, venderam também para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). 

“Antes, a dificuldade era grande. A gente pensava que o dia ia amanhecer e não tínhamos o necessário na mesa”, conta Irene. “Você não sabe a felicidade que eu tenho hoje de chegar ao meio dia em casa e ter de tudo um pouquinho na mesa. A minha filha vai pra escola e, quando chega em casa, vê a minha felicidade de ela achar um arroz na mesa, um bife ou frango ou ovos e um suco. É tudo natural!”, diz, com brilho no olhar. 

Uma lutadora – Irene é de uma família de sete irmãos, sendo três homens e quatro mulheres. Todos precisavam trabalhar – história que era comum no Sertão. A casa não tinha luz e a roupa que usavam era feita de estopa. Dos 7 aos 14 anos, elas e os irmãos acordavam às 4 horas da manhã todo dia. Primeiro, tinham que buscar lenha para usar no fogão. Em seguida, andavam mais de 15 quilômetros para buscar água. Depois, a tarefa era ajudar a mãe a pisar e torrar o milho para o café da manhã. “A mãe cozinhava os ovos que tinha e dava pra gente. Ás vezes não dava pra ela, às vezes, a gente só tinha uma refeição no dia.” 

Aos 20 anos de idade, ela casou com David. Antes da chegada das cisternas e dos programas sociais, sem condições de sustento, a meta do casal de agricultores era sobreviver às condições de extrema pobreza. “Era um tempo muito difícil, que dá tristeza de lembrar. Foi um passado muito doloroso”, ela fala, com voz embargada. “Eu tinha vergonha. Não tinha roupa adequada se precisasse sair. Não tinha como arrumar meu cabelo. Não podia pensar nisso.” 

Depois do nascimento do primeiro filho, David se mudou para São Paulo, para trabalhar em fazendas de Ribeirão Preto e tentar mandar dinheiro para a família. Irene cuidou do filho com a ajuda dos pais e irmãs. Mas a renda com o corte de cana mal servia para o próprio sustento do agricultor. 

Dois anos depois, ele retornou para casa. Irene engravidou e tiveram a segunda filha, Keila. David partiu então para Ibotirama (BA), pois no Sertão não havia oportunidade de trabalho nem de renda. Irene ficou cuidando dos dois filhos e, mais uma vez, a família a ajudou. Um ano em Ibotirama e David retornou para Serra Preta, sem sucesso. E decidiu, então, ficar no campo de vez, ao lado da família. 

Um futuro melhor – Irene completou o Ensino Médio. Ela ajudou o marido a se alfabetizar e depois David fez o supletivo. Anderson cursa o terceiro ano do Ensino Médio e trabalha com os pais na produção agrícola da família. Keila está na mesma série que o irmão. E ela ainda faz aulas extras para se preparar para o vestibular. Irene paga R$ 30 pelo curso, com o objetivo de que a filha curse uma faculdade e tenha acesso a uma vida melhor. 

Eles recebem o Bolsa Família. E trabalham para que a ajuda seja uma condição temporária. “No máximo até ano que vem, não vou precisar mais e vou passar para outra família”, afirma Irene. Ela e o marido aumentaram a criação de galinhas no último ano e vendem ovos nas feiras e nos mercados locais. Já começaram a plantar laranja, mamão, acerola e maxixe também. Ano passado, eles conseguiram comprar um carro usado, um Fiat Uno de 2011, com o que conseguiram economizar ao longo de vários anos. O veículo é usado para compras e transporte da família. Quem dirige é Anderson.

Ainda neste mês, Irene espera que o Banco do Nordeste libere um empréstimo para que eles possam para cavar um açude, para aumentar ainda mais a captação de água das chuvas e ampliar a produção. Este é o sexto empréstimo que ela faz por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Com os anteriores, preparou o terreno (que tem área total de uma tarefa) para o cultivo, comprou vigas e telas para a proteção dos canteiros, cercas, ovelhas, galinhas e uma vaca de leite.

As mulheres e os programas sociais no campo

• 94% dos responsáveis pelas cisternas instaladas para consumo são mulheres (outubro de 2015)

• 93% dos responsáveis pelas cisternas instaladas para produção são mulheres (junho de 2015)

• 197 mil famílias recebem recursos para fomento à produção, tendo 70 % de mulheres como responsáveis familiares (137,8 mil).

• 358 mil famílias recebendo assistência técnica, sendo 88% chefiadas por mulheres (dezembro de 2015)

• PAA: 96,1 mil agricultores familiares fornecedores, sendo 38,4 mil mulheres fornecedoras de alimentos, 40% do total (dados preliminares)

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