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Uma nova forma de comprar: os consumidores que sustentam a agricultura

Tema é destaque na quinta edição da Revista Ideias na Mesa
publicado  em 08/09/2015 10h00

Às terças-feiras, o agricultor Idalércio Barbetta, 43 anos, acorda bem cedo para fazer as entregas do dia. Sobre sua banca no centro da cidade, separa batatas doces, cebolas, bananas, laranjas, entre outras frutas e verduras frescas. Em torno das 8h, as pessoas começam a chegar para buscar as cestas. Cada um paga uma mensalidade fixa, que lhes dá direito a uma farta e variada cesta por semana. Em troca, pelo compromisso, os clientes sabem em detalhes onde e como os alimentos são produzidos, com a garantia de que tudo é orgânico e da melhor qualidade. Na banca, cumprimentam Idalércio pelo nome, em clima de amizade. 

O que pode parecer uma cena de um município pequeno ocorre, na verdade, em frente a um restaurante vegetariano na Asa Sul, no Plano Piloto de Brasília. Idalércio e seus compradores fazem parte de uma CSA, sigla que corresponde a “Comunidade que Sustenta a Agricultura”. Como diz o nome, trata-se de um modelo em que um grupo de pessoas passa a ser parceiro do agricultor, dividindo os custos da produção. A cada semana, os consumidores - chamados de co-agricultores ou associados - recebem uma cota de produtos orgânicos. Tais iniciativas trazem diversos benefícios para ambas as partes e têm se tornado cada vez mais populares na capital. 

Resgatar o espírito comunitário, comer de forma saudável e produzir alimentos de forma sustentável são os pilares de grupos como o de Idalércio, como explica uma das articuladoras do coletivo CSA Brasília – rede de voluntários que procura incentivar esse tipo de prática no Distrito Federal -, Renata Navega. “O consumidor se aproxima do agricultor, conhecendo quem faz o alimento, além de fatores importantes associados à produção, como uso da água, insumos e destinação dos resíduos”, detalha. Ela também destaca o lado social das CSAs. “Essas iniciativas também permitem a criação de pontos de convivência e aproximação das pessoas com propósitos comuns”, acrescenta Renata. 

As primeiras CSAs surgiram na Alemanha, na dé- cada de 1970, integradas por agricultores familiares e pessoas interessadas em apoiar a produção local. No Japão também existe um modelo semelhante desde 1960, chamado “teikei”. No Brasil, os primeiros grupos se formaram em São Paulo, na Demétria, bairro do município de Botucatu. Atualmente, há mais de 400 famílias de co-agricultores associadas a esta CSA. Iniciativas similares também podem ser encontradas no Rio de Janeiro e Minas Gerais. No DF, existem duas CSAs: Barbetta e Toca da Coruja. Segundo Renata, também há diversos agricultores interessados em iniciar novas CSAs em São Sebastião e Planaltina. 

A CSA Barbetta é a de Idalércio, que faz questão de enfatizar as vantagens do sistema. “Para o produtor é ótimo. Ele não precisa se preocupar com a falta de dinheiro, pois o serviço é pré-pago, e também não precisa investir tempo demais fazendo feira”, argumenta. A chácara dele fica no Setor Tororó e abastece 15 co-agricultores, que pagam mensalidades de R$ 240 ou R$ 400, de acordo com o tamanho da família. Em troca, recebem cotas semanais com 10 a 12 produtos diferentes. A previsão é aumentar para 60 o número de associados. 

O grupo se encontra para buscar as cestas em dois estabelecimentos que são “pontos de convivência”. O primeiro estabelecimento, inclusive, também é abastecido por Idalércio. Uma das donas do lugar, Roselis Maior Moraes, 60 anos, atesta a qualidade dos produtos. “Como eu conheço a procedência dos alimentos, sei que tudo é realmente orgânico e cultivado da melhor forma”, diz. 

Os agricultores responsáveis pela CSA Toca da Coruja são o casal Andrea Zimmerman, 36 anos e Fábio França, 45 anos. Eles têm uma propriedade no Lago Oeste, onde cultivam alimentos agroecológicos. O grupo foi formado com 22 co-agricultores que pagam R$ 245, reais por mês. As cestas já começaram a ser entregues com dez ítens diferentes. “Acho muito importante incentivar práticas sustentáveis economicamente, além de socialmente justas, então pesquisei bastante sobre CSAs e, no ano passado, fiz um curso em Botucatu”, conta Andrea. 

Como Idalércio, Andrea defende que modelos como as CSAs são tão proveitosos para agricultores como consumidores. “É construída uma relação de confiança e transparência que dá mais segurança para os dois lados”, afirma. Andrea ressalta, ainda, que o envolvimento dos co-agricultores na rotina da Toca da Coruja traz resultados muito produtivos. “Alguns fazem a contabilidade, outros ajudam com a comunicação e organização. Todos colaboram para que o trabalho seja feito da melhor forma”, explica. Na CSA de Idalércio, o convívio também possibilitou a formação de laços de amizade entre os associados. “Até organizamos festas juninas na chácara”, relata. 

De acordo com Renata, da CSA Brasília, o movimento tem tudo para crescer na capital. O coletivo, inclusive, planeja realizar diversas ações para incentivar o surgimento de novos grupos. “Queremos organizar encontros sobre o tema, para trocar experiências e aprender sobre distintos modelos de funcionamento de CSAs”, informa. Com o debate, a rede visa medir os impactos que uma escolha mais consciente de consumo e relação com a agricultura podem ter na alimentação e qualidade de vida das pessoas.

Fonte: Revista Ideias na Mesa. Acesse aqui a revista completa.