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Abastecimento: como chegam os alimentos à nossa mesa?

SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL

Tema é destaque na quinta edição da Revista Ideias na Mesa
publicado  em 11/08/2015 08h00

O alimento do campo para a mesa. Essa é uma imagem que permeia o imaginário humano desde que o homem aprendeu a cultivar a terra. A questão é que, no cotidiano, pouco ou nunca paramos para pensar em como chega o alimento à nossa mesa. Com o avanço do tempo, essa passou a ser uma atividade cada vez mais complexa, composta por agentes que mediam o acesso aos alimentos e sua produção.

Há alguns anos, o tema vem preocupando pesquisadores e profissionais que estudam e trabalham com Segurança Alimentar e Nutricional. No Brasil, estudos começaram a mostrar uma população brasileira cada vez mais urbana e mais distante de alimentos saudáveis. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que 90% da população dos municípios com mais de cem mil habitantes é urbana.

O distanciamento do campo, fonte de alimentos nutritivos e diversificados, ocorreu com o crescimento de um modelo de produção no qual dominam as grandes empresas que controlam também o processamento e a comercialização de alimentos. Este mesmo modelo também resultou em um consumo cada vez mais baseado em produtos ultraprocessados. Multiplicaram-se as grandes redes de distribuição de alimentos, como supermercados e hipermercados, onde passaram a valer a competição de preços e a consequente eliminação de elementos mais frágeis da cadeia, como os varejos de pequeno porte.

Segundo Julian Perez, professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e integrante do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar (FBSAN), hoje, um dos grandes limitadores à promoção de uma alimentação de qualidade e culturalmente apropriada é a grande concentração econômica do varejo no Brasil. “As cinco maiores redes supermercadistas do país controlam mais de 60% do mercado e, a partir desse controle, estabelecem normas e procedimentos para a produção, processamento e comercialização dos alimentos que se impõe sobre todos os demais atores do mercado”, explica.

Esse processo predatório foi um dos fatores que levaram ao surgimento do que ficou conhecido como desertos alimentares. São áreas desabastecidas de alimentos saudáveis, onde o consumidor tem que percorrer longas distâncias para encontrar o que precisa, gastando mais tempo e dinheiro, um fenômeno preocupante por refletir diretamente na saúde dessas comunidades que ficam à mercê de alimentos ultraprocessados e sem valor nutricional.

Aqui, entra o princípio da soberania alimentar, segundo o qual as comunidades e nações devem ter resguardado o direito de produzir e distribuir sua própria alimentação independente das oportunidades de mercado. O que significa que os alimentos não devem ser tratados como commodities nos mercados internacionais, favorecendo a especulação e a flutuação descabida de preços, colocando em risco o abastecimento alimentar das populações pobres.

Uma nova maneira de abastecer - O debate sobre o abastecimento alimentar ganhou força no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), instância consultiva que congrega setores do governo e da sociedade civil, no ano de 2004, quando foi proposta ao governo a criação de uma política nacional de abastecimento.

O principal objetivo dessa proposta é ampliar o acesso dos diversos segmentos da população a alimentos de qualidade e promover uma alimentação adequada e saudável. Também promover a diversidade de hábitos alimentares, com a valorização de formas sustentáveis de produção e comercialização de alimentos, com destaque para a agricultura familiar e os pequenos empreendimentos urbanos. O enfoque atende aos princípios que orientam a segurança alimentar e nutricional, o direito humano à alimentação adequada e à soberania alimentar.

Em um dos documentos que subsidiaram esse debate, o professor Renato Maluf observa que hoje o sistema de abastecimento alimentar brasileiro não dispõe de requisitos de adequação, equidade e sustentabilidade. Ele aponta a necessidade de ações combinadas entre acesso e produção, de forma a ampliar o alcance da população a alimentos adequados e saudáveis oriundos de modelos de produção socialmente inclusivos e ambientalmente sustentáveis.

Para Julian Perez, a agricultura familiar possui papel fundamental na construção dessa política de abastecimento, não só por ser o setor rural brasileiro responsável pela maior parte do abastecimento interno, mas também por possuir na sua essência produtiva a preocupação com a diversificação da produção.
“Isto significa redução da pressão sobre o consumo e aumento da oferta de alimentos, o que nos leva a outro aspecto importante da constituição dessa política, não só a valorização e o fortalecimento da produção para o autoconsumo da agricultura familiar, mas também no estímulo a outras formas de produção, como por exemplo, a agricultura urbana, de forma a que se aumentem os mecanismos de aquisição não monetária de alimentos por parte das famílias”, explica Perez.

Existe no país experiências de abastecimento que vêm fortalecendo o circuito de proximidade entre agricultores e consumidores, com resultados na promoção da alimentação saudável. São exemplos o Circuito Sul de Comercialização, nos estados do Sul do país, as comunidades que sustentam a agricultura, as CSAs, formadas em Brasília, São Paulo e outros estados, e um projeto em Curitiba, no Paraná, município referência em projetos de abastecimento.

Fonte: Revista Ideias na Mesa. Acesse aqui a revista completa.